Apesar do avanço nos transplantes, desconhecimento e falta de diálogo com familiares ainda são barreiras para salvar vidas em Mato Grosso do Sul

Mato Grosso do Sul tem se destacado nacionalmente pelo avanço nos transplantes de órgãos, especialmente após iniciar, em menos de um ano, os procedimentos de fígado no Estado. No entanto, um obstáculo importante ainda persiste: a alta taxa de recusa familiar para a doação de órgãos, que atualmente atinge 60% dos casos, segundo a Central Estadual de Transplantes (CET/SES).
Esse número significa que, a cada dez entrevistas feitas com famílias de potenciais doadores, seis resultam em negativa para a doação. A decisão, embora pessoal e muitas vezes tomada em momentos de dor e luto, representa um impacto direto na vida de centenas de pessoas que aguardam por um órgão para sobreviver ou recuperar a qualidade de vida.
Mais de 400 Pessoas Estão na Fila por um Transplante no Estado
De acordo com dados da CET, 428 pacientes aguardam por transplantes de órgãos e tecidos em Mato Grosso do Sul. Somente entre janeiro e setembro de 2025, o Estado realizou:
- 218 transplantes de córnea
- 39 de fígado
- 16 de rim
- 4 de ossos
Esses números colocam Mato Grosso do Sul na 4ª colocação nacional em transplantes de fígado por milhão de habitantes, com uma taxa de 17. O Estado está atrás apenas do Distrito Federal (48,3), Paraná (21,0) e Ceará (18,6), de acordo com o Registro Brasileiro de Transplantes (RBT).
Apesar desse avanço, a taxa de recusa familiar ainda limita o crescimento dos procedimentos e impede que mais vidas sejam salvas.
Falta de Comunicação Familiar é o Principal Obstáculo
Segundo a coordenadora da CET, Claire Carmen Miozzo, o momento da entrevista com os familiares é um dos mais delicados e decisivos em todo o processo. Para ela, a abordagem precisa ser feita com empatia e acolhimento.
“A entrevista familiar é uma etapa decisiva no processo de doação. Por isso, é fundamental que a equipe esteja preparada para acolher com sensibilidade e clareza, respeitando o momento de luto. Quando a pessoa manifesta em vida o desejo de ser doadora, essa informação facilita a tomada de decisão e aumenta as chances de autorização”, afirma.
É por isso que campanhas como o Setembro Verde ganham ainda mais importância. A proposta é sensibilizar a população sobre a relevância de falar sobre o assunto com os familiares, deixando claro o desejo de doar em caso de morte encefálica.
Quem Pode Autorizar a Doação de Órgãos?
De acordo com a legislação brasileira, apenas cônjuges, companheiros e parentes até segundo grau (como pais, filhos, irmãos e avós) podem autorizar a doação de órgãos após a morte. Além disso, é necessário o acompanhamento de duas testemunhas para validar a decisão.
O sistema brasileiro de transplantes é baseado na autorização familiar, ou seja, mesmo que a pessoa tenha o desejo de doar seus órgãos, a doação só acontece se os familiares autorizarem formalmente.
Setembro Verde: Campanhas Reforçam a Importância da Doação
Para ampliar o debate e aumentar a conscientização sobre o tema, duas ações públicas estão programadas em Campo Grande:
- Dia 21 de setembro (sábado): acontece a 2ª Caminhada “Passos pela Vida”, das 8h às 10h30, no Espaço de Múltiplo Uso Arquiteta Zuleide Simabuco Higa, no Parque dos Poderes. A ação conta com apoio da Assembleia Legislativa, CET/MS, Hospital Adventista do Pênfigo e Fratello Transplantes.
- Dia 22 de setembro (domingo): será realizada uma sessão solene no Plenário Deputado Júlio Maia, no Palácio Guaicurus, às 19h. Na ocasião, será entregue o Diploma de Honra ao Mérito Legislativo “Amigo do Transplante”, criado pela Resolução nº 32/2019. A homenagem reconhece instituições e pessoas que atuam diretamente no fortalecimento da cultura da doação no Estado.
Doação de Órgãos: Um Ato de Amor Que Salva Vidas
A doação de órgãos é, antes de tudo, um gesto de empatia e solidariedade. Um único doador pode salvar até oito vidas com a doação de órgãos como coração, fígado, rins, pulmões e pâncreas, além de beneficiar dezenas de pessoas com a doação de tecidos como córneas, pele e ossos.
Para que isso seja possível, é essencial que mais pessoas conversem abertamente com suas famílias sobre a decisão de serem doadoras. Esse diálogo, feito em vida, pode ser determinante no momento da perda, ajudando os familiares a respeitarem esse desejo e permitindo que outras vidas sejam salvas.
A recusa familiar, muitas vezes, decorre do desconhecimento ou da falta de clareza sobre a vontade do ente querido. Por isso, campanhas de conscientização, ações educativas e homenagens públicas são ferramentas fundamentais para mudar essa realidade.
Enquanto centenas esperam por uma segunda chance de vida, cada decisão conta.
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Autoria: Sarah Pacini

