Alegações feitas por Donald Trump associam o uso de paracetamol durante a gestação ao aumento do risco de autismo, mas especialistas alertam que as evidências científicas ainda são inconclusivas. Aumento dos diagnósticos e fatores genéticos também são discutidos.

O uso de paracetamol durante a gravidez se tornou um tema controverso nos Estados Unidos, impulsionado por alegações feitas pelo ex-presidente Donald Trump. Ele afirmou que o consumo do medicamento, comumente utilizado como analgésico e antitérmico, poderia estar relacionado ao aumento do risco de autismo nas crianças. A afirmação gerou um intenso debate, mas especialistas no assunto alertam que, até o momento, não há evidências científicas suficientes para provar qualquer tipo de relação causal entre o paracetamol e o transtorno do espectro autista (TEA).
O Paracetamol: Uso Comum e Controvérsias
O paracetamol, vendido em muitos países sob o nome comercial Tylenol, é um dos analgésicos mais utilizados no mundo. Ele é amplamente reconhecido por ser seguro para uso durante a gravidez, sendo a primeira escolha para tratar dores e febre em gestantes. A segurança do paracetamol durante a gestação é respaldada por várias organizações, como o Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia e as diretrizes do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido.
No entanto, a crescente preocupação com o uso do medicamento durante a gravidez levou à realização de diversos estudos para investigar possíveis impactos no desenvolvimento fetal. Alguns estudos observaram associações discretas entre o uso de paracetamol e um maior risco de autismo ou outros transtornos do neurodesenvolvimento, mas os resultados ainda não são definitivos.
A Expansão do Diagnóstico de Autismo: Fatores de Confusão
O autismo, também conhecido como transtorno do espectro autista (TEA), é uma condição neurológica caracterizada por dificuldades no desenvolvimento da linguagem, habilidades sociais e comportamentos repetitivos. Embora o diagnóstico de autismo tenha aumentado nas últimas décadas, isso pode ser atribuído, em parte, à expansão dos critérios diagnósticos e ao aumento da conscientização sobre o transtorno, que incentivou mais pais a buscarem uma avaliação para seus filhos.
No início dos anos 2000, a prevalência de autismo era estimada em 1 a cada 150 crianças, mas, de acordo com dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, esse número saltou para 1 a cada 36 crianças em 2020. No entanto, especialistas afirmam que esse aumento pode ser mais relacionado à ampliação dos critérios diagnósticos e à maior busca por serviços de avaliação, e não a um aumento real na prevalência do transtorno.
Em um estudo publicado na revista “JAMA”, por exemplo, não foram encontradas evidências conclusivas de que o uso de paracetamol durante a gravidez tivesse impacto no aumento dos casos de autismo. Ao considerar fatores de confusão, como infecções que podem motivar o uso do medicamento, a associação entre o remédio e o autismo desapareceu.
A Perspectiva do Governo Trump
O ex-presidente Donald Trump, e mais recentemente o secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr., têm defendido uma teoria de que o uso do paracetamol pode ser responsável pela “epidemia” de autismo nos Estados Unidos. Trump citou uma revisão de 46 estudos publicada na revista científica Environmental Health em agosto de 2025, que encontrou algumas correlações entre o uso de paracetamol e o desenvolvimento de autismo ou TDAH, mas sem provas de causalidade. A revisão dos estudos, conduzida por pesquisadores de Harvard, não forneceu base suficiente para apoiar a alegação de Trump.
A FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos) e a Kenvue, fabricante do Tylenol, também refutaram essas alegações, afirmando que os dados disponíveis até o momento não comprovam qualquer risco adicional ao uso do paracetamol durante a gestação.
O Papel da Genética e os Fatores Ambientais
A principal explicação para o autismo, segundo especialistas, está na genética. Pesquisas indicam que entre 85% e 90% dos casos de TEA podem ser explicados por fatores genéticos. Fatores ambientais, como exposições a substâncias tóxicas ou infecções durante a gravidez, também podem contribuir, mas são considerados fatores menores em comparação com a genética.
Guilherme Polanczyk, psiquiatra de crianças e adolescentes e professor de Psiquiatria da USP, destaca que o aumento das taxas de diagnóstico de autismo não implica necessariamente em um aumento real de casos. Ele explica que a mudança nos critérios diagnósticos e a maior acessibilidade a serviços de apoio educacional podem explicar parte do aumento observado nos últimos anos. Além disso, fatores como infecções maternas, que exigem o uso de medicamentos como o paracetamol, também devem ser considerados ao investigar as causas do autismo.
O Caso da Leucovorina e Outras Substâncias
Além do paracetamol, o governo Trump também mencionou o uso de leucovorina, um composto derivado do ácido fólico, como possível tratamento para os sintomas do autismo. No entanto, a evidência científica sobre a eficácia da leucovorina para tratar o autismo ainda é limitada. Embora alguns estudos preliminares tenham mostrado resultados promissores, especialistas alertam que ainda é cedo para recomendar o uso desse medicamento para o tratamento do transtorno.
A leucovorina já foi retirada do mercado por motivos comerciais, mas uma versão recentemente aprovada pela farmacêutica GSK foi liberada para novos estudos. Polanczyk enfatiza que, embora o tratamento do autismo com medicamentos seja uma área de pesquisa ativa, a heterogeneidade da condição torna difícil encontrar um tratamento único e eficaz para todos os pacientes.
Desinformação sobre o Autismo: O Perigo da “Epidemia”
Arthur Ataide Garcia, vice-presidente da Autistas Brasil e pesquisador sobre desinformação, critica a abordagem de Trump e de outros defensores da teoria de uma “epidemia de autismo”. Ele argumenta que essas afirmações estão sendo usadas como uma “cruzada política” sem base científica, e que, em vez de buscar causas mirabolantes para o autismo, o foco deve ser em políticas públicas que promovam a inclusão e o cuidado adequado para pessoas com TEA.
Garcia também alerta que o Brasil tem se tornado um centro para a disseminação de desinformação sobre o autismo, com muitas pessoas propagando falsas causas e curas para a condição. Isso é particularmente perigoso, pois desvia o foco das necessidades reais de apoio social e educacional para indivíduos no espectro autista.
O Que Sabemos Até Agora
Embora as alegações sobre o uso de paracetamol durante a gravidez e o autismo tenham ganhado visibilidade nos últimos meses, as evidências científicas disponíveis não são suficientes para confirmar qualquer relação de causa e efeito entre os dois. As investigações continuam, mas os especialistas concordam que fatores genéticos são os maiores determinantes no desenvolvimento do autismo.
Além disso, a busca por tratamentos “milagrosos” ou causas não comprovadas, como a teoricamente vinculada ao uso de paracetamol, pode prejudicar a compreensão e o apoio que as pessoas com autismo realmente necessitam. A prioridade, portanto, deve ser a promoção de uma sociedade mais inclusiva e de políticas públicas que assegurem uma educação e cuidados adequados para aqueles que vivem com o transtorno.
Autoria: Sarah Pacini
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