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Kongjian Yu publicou vídeo misterioso antes de morrer

Kongjian Yu publicou vídeo misterioso antes de morrer

Criador do conceito de “cidades-esponja”, Yu chamava o Pantanal de ‘último Jardim do Éden’ e participava da gravação de um documentário quando a tragédia aconteceu em MS

O renomado arquiteto chinês Kongjian Yu, conhecido mundialmente por idealizar o conceito de “cidades-esponja”, foi uma das quatro vítimas fatais de um acidente de avião no Pantanal, em Aquidauana (MS), ocorrido no último dia 24 de setembro. Um dia antes da tragédia, Yu havia publicado um vídeo emocionante em suas redes sociais, descrevendo o bioma brasileiro como o “último Jardim do Éden da Terra” e afirmando: “Minha jornada está apenas começando”.

No vídeo, Kongjian aparece ao lado de uma comitiva de gado, vivenciando o cotidiano pantaneiro e admirando a grandiosidade da natureza. O conteúdo havia sido compartilhado no WeChat, rede social popular na China, e fazia parte das gravações de um documentário sobre áreas úmidas e sustentabilidade.

“O Pantanal, essa área úmida conhecida como ‘Pulmão da Terra’, não é apenas o coração das Américas, mas também um reservatório vital de água e vida para toda a humanidade”, disse Yu no vídeo.

Trágico acidente em meio à expedição ambiental

Kongjian Yu estava no Brasil com os cineastas Luiz Fernando Ferraz e Rubens Crispim Jr., além do piloto Marcelo Pereira de Barros, que também morreram no acidente. A aeronave caiu e explodiu ao lado da pista da Fazenda Barra Mansa, uma área turística no coração do Pantanal sul-mato-grossense.

O grupo havia chegado à região para gravar um documentário sobre a importância ecológica dos pântanos e o impacto ambiental das decisões humanas, tema central da carreira de Yu. A viagem estava sendo organizada por uma produtora brasileira, e a equipe se hospedou na fazenda.

Pantanal: inspiração e alerta para a humanidade

Conhecido por sua defesa de sistemas urbanos sustentáveis e do equilíbrio ambiental, Yu via o Pantanal como uma das mais importantes áreas de conservação do planeta. No vídeo postado antes do acidente, ele se mostra impactado pela travessia de uma comitiva de gado e pelas vastas paisagens alagadas.

“A água daqui, a vida daqui e as escolhas humanas daqui irão nos revelar uma questão urgente: quando até os últimos paraísos naturais estão desaparecendo, de onde mais a humanidade poderá tirar esperança para sobreviver?”, refletiu o arquiteto.

Yu dedicava sua vida a estudar soluções naturais para problemas urbanos, defendendo que áreas úmidas deveriam ser protegidas e integradas ao planejamento das cidades. Para ele, biomas como o Pantanal eram “sistemas naturais esponjosos” — essenciais para o ciclo da água e a biodiversidade.

Investigação aponta irregularidades no voo

De acordo com a Polícia Civil e o Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), o avião voava fora do horário permitido, após o pôr do sol, e não tinha autorização para transportar passageiros de forma remunerada. A pista da fazenda, por norma, deveria ser utilizada até 17h39, mas o acidente aconteceu após as 18h.

Segundo relatos colhidos pelas autoridades, a aeronave teria feito diversos pousos e decolagens durante o dia. Durante a tentativa final de pouso, o avião arremeteu, caiu a cerca de 100 metros da pista e explodiu ao tocar o solo. As vítimas foram encontradas carbonizadas no local.

O caso segue sob investigação pelo Dracco (Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado) e pelo Cenipa, que apuram detalhes sobre as condições do voo, possíveis falhas mecânicas ou operacionais, e se houve negligência por parte da empresa ou organização responsável pelo transporte.

Quem foi Kongjian Yu?

Kongjian Yu era professor da Universidade de Pequim, fundador do escritório Turenscape e uma das maiores referências internacionais em arquitetura verde, planejamento urbano e infraestrutura natural.

Entre suas maiores contribuições está o conceito de “cidades-esponja”, que propõe o uso de infraestruturas naturais para absorver e reter água da chuva, combatendo enchentes e preservando o ciclo hídrico em áreas urbanas. A proposta tem sido aplicada em dezenas de cidades da China, Europa e América Latina.

Yu era frequentemente convidado por governos e universidades ao redor do mundo para debater soluções ambientais de grande escala. Ele acreditava que a restauração dos ecossistemas era o único caminho viável para enfrentar a crise climática global.

Repercussão e homenagens

A morte de Kongjian Yu teve grande repercussão na comunidade internacional de arquitetura, urbanismo e meio ambiente. Universidades, colegas e instituições ligadas à preservação da natureza prestaram homenagens ao arquiteto.

Nas redes sociais, usuários da China e do Brasil lamentaram a tragédia, destacando o simbolismo da mensagem final deixada por Yu: uma reflexão sobre o futuro da humanidade diante da destruição dos seus últimos refúgios naturais

“Minha jornada de exploração está apenas começando”, disse ele. E com essa frase, Kongjian Yu deixou seu legado mais vivo do que nunca: o de transformar cidades e salvar o planeta a partir da natureza.

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