Festival gastronômico une fronteiras com música latina, tradição familiar e o sabor marcante da saltenha, símbolo da identidade corumbaense

Corumbá se prepara para mais uma edição de um dos eventos mais saborosos e simbólicos da fronteira: o Saltenha Fest, uma celebração da gastronomia e da convivência entre brasileiros e bolivianos. O festival, criado para valorizar a iguaria que se tornou parte do cotidiano corumbaense, já é um marco na agenda cultural da região e reúne milhares de pessoas à beira do Rio Paraguai, embaladas por ritmos latinos e pelo irresistível aroma do salgado que une dois países.
A saltenha, um tipo de pastel assado em formato de meia-lua, nasceu na Bolívia, mas ganhou o coração do povo pantaneiro. Feita com massa fina, colorida com urucum, e recheada com frango, batata, ervilha, ovo, azeitona e uvas-passas, ela é presença garantida em padarias, lanchonetes e feiras de Corumbá e também conquistou espaço nas bancas de Campo Grande. Mais do que um alimento, a saltenha representa a fusão cultural entre povos vizinhos, quebrando barreiras e fortalecendo laços históricos entre Brasil e Bolívia.
Um símbolo de união na fronteira
O principal idealizador do evento é o ativista cultural corumbaense Arturo Ardaya, de 64 anos, filho de bolivianos e apaixonado pela gastronomia da fronteira. Para ele, a saltenha é mais do que uma delícia tradicional: é um instrumento de união. “Criamos esse encontro para celebrar nossos laços culturais e afetivos. Brasileiros e bolivianos se encontram para se divertir, ouvir boa música e degustar um salgado que virou símbolo de integração”, explica.
Foi com essa visão que Arturo conseguiu, em 2021, aprovar na Câmara de Vereadores de Corumbá a criação do Dia da Saltenha, comemorado em 10 de novembro. Desde então, o evento cresceu e se consolidou como uma das maiores festas populares da cidade. A edição deste ano ocorre neste sábado, das 16h às 21h, no Porto Geral, um dos cartões-postais mais conhecidos do Pantanal. Em 2024, mais de oito mil saltenhas foram consumidas durante as horas de festa.
Tradição que nasce da resistência
A história de Arturo se confunde com a própria trajetória da saltenha em Corumbá. Sua mãe, dona Elsy, sustentou a família vendendo o salgado por mais de 40 anos nos bairros periféricos da cidade. A receita passou de geração em geração, tornando-se parte do patrimônio familiar. Hoje, mesmo com limitações físicas, Arturo preserva o legado com orgulho e incentiva novas gerações a manter viva essa tradição.
O criador do festival destaca que, apesar da influência multicultural — indígena, boliviana, paraguaia, portuguesa e cuiabana —, poucos elementos representam tão bem a identidade corumbaense quanto a saltenha. “Quem mora fora e sente saudade da cidade, logo pede uma saltenha. É um pedacinho de Corumbá que viaja com a gente”, diz.
A música e o sabor da integração
Neste ano, o Saltenha Fest também terá um toque artístico especial: o lançamento de um hino oficial do evento, composto pelo professor e sambista Pedro Castro, com apoio de ferramentas de inteligência artificial. A canção mistura poesia e ritmo latino para traduzir o espírito da confraternização:
“Sabor de união,
Da Bolívia ao Pantanal,
É tradição,
Recheada de história,
Suculenta paixão…”
Durante mais de cinco horas de festa, o público poderá saborear versões variadas da saltenha — com recheios de frango, carne bovina, porco ou até opções vegetarianas — enquanto dança ao som de cumbia, bachata, salsa e merengue. A programação contará com apresentações da Orquestra Internacional Sombras de América, de Porto Quijarro, e da Banda Manoel Florêncio, reforçando a proposta de integração musical e cultural entre os dois lados da fronteira.
O segredo revelado: a receita dos Ardaya
Em um gesto raro, Arturo Ardaya decidiu compartilhar com os leitores o segredo de família. A receita tradicional, guardada por décadas, é o orgulho da casa. “É o nosso símbolo de pertencimento. Mas chegou a hora de dividir com quem ama a saltenha tanto quanto nós”, revela.
Ingredientes da massa (para 40 unidades):
- 1 kg de farinha de trigo
- 200 g de banha
- 100 g de sementes de urucum (reserve parte para o recheio)
- 1 colher de sopa de sal
- 300 ml de água
Recheio:
- 1,5 kg de peito de frango
- 1,5 kg de batata
- ½ kg de cebola
- 100 g de pimenta seca
- Pimenta-do-reino, cominho e orégano a gosto
- 1 colher de sopa de sal
- 100 g de ervilha
- 40 azeitonas
- 80 uvas-passas
- Ovos cozidos picados a gosto
A massa ganha sua cor característica ao ser misturada com o “tingimento” feito de urucum e banha. Depois de descansar, ela é aberta, recheada e trançada com as mãos antes de ir ao forno por cerca de 40 minutos. O resultado é uma casquinha dourada e crocante, que envolve um recheio suculento e levemente adocicado.
Cozinha de fronteira e orgulho pantaneiro
Para chefs e pesquisadores da gastronomia regional, a saltenha é um exemplo perfeito do conceito de cozinha de fronteira, que ultrapassa limites geográficos e políticos. Ela mostra como as influências culturais se misturam naturalmente, criando novas tradições a partir do encontro entre povos.
Em Corumbá, a iguaria se tornou um símbolo de resistência e identidade, lembrando que o sabor pode ser uma poderosa ferramenta de aproximação. O Saltenha Fest é, portanto, mais do que uma festa gastronômica: é um manifesto de união, respeito e pertencimento.
Quem visita o Porto Geral neste sábado certamente vai levar mais do que uma lembrança gustativa. Vai sentir o sabor da amizade entre dois povos, a mistura de histórias e o orgulho de uma região que celebra sua diversidade com música, alegria e, claro, muita saltenha.
Autoria: Sarah Pacini
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