Artesã de Corumbá transforma resíduos postais em peças de moda autoral e leva o Pantanal para o maior evento climático do planeta

De antigos malotes dos Correios a bolsas exclusivas e cheias de história. É assim que a artesã Lucienne Lopes Teixeira, de 57 anos, transforma materiais descartados em acessórios sustentáveis que em breve cruzarão fronteiras e ganharão o cenário internacional da COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que será realizada em Belém (PA).
À frente do Lú Lopes Ateliê, Lucienne foi convidada para representar o Instituto Moinho Cultural Sul-Americano, de Corumbá (MS), em parceria com o Sebrae/MS, levando para o evento 150 peças únicas — entre mini mochilas, bolsas e nécessaires — todas produzidas a partir de malotes postais reaproveitados.
Cada bolsa carrega consigo um pedaço do Pantanal, seja nos bordados de araras, tamanduás e onças, seja na história de transformação que o projeto representa. Mais do que moda, as peças simbolizam sustentabilidade, economia criativa e empoderamento feminino.
De descarte a design sustentável
A iniciativa nasceu da colaboração entre o Moinho Cultural e o Lú Lopes Ateliê, com o apoio técnico e de capacitação do Sebrae. A proposta era simples, mas inovadora: reutilizar os malotes de lona dos Correios — que perderam a utilidade operacional — e dar a eles um novo propósito por meio do design artesanal.
O resultado são acessórios resistentes, estilosos e cheios de significado, produzidos com técnicas de costura e bordado manual. Cada item é confeccionado de forma autoral, com elementos da fauna pantaneira que já se tornaram marca registrada da artesã.
“Vai tudo com um pedacinho do Pantanal. Cada peça tem uma história, um bicho, uma lembrança do nosso lugar. É emocionante poder mostrar isso para o mundo”, conta Lucienne, emocionada com o convite para apresentar suas criações na COP30.
Um projeto que une arte, sustentabilidade e impacto social
A diretora executiva do Instituto Moinho Cultural, Mônica Macedo, destaca que o projeto é um exemplo de como o reaproveitamento de materiais pode gerar impacto positivo em várias frentes.
“Esse trabalho une sustentabilidade, empreendedorismo e impacto social — três pilares que orientam nossas ações. Transformar resíduos em oportunidade é uma forma de mostrar que a moda pode ser consciente e inclusiva”, afirma.
O Moinho Cultural, eleito a melhor ONG de Cultura do Brasil, atua há 21 anos na fronteira Brasil-Bolívia, promovendo inclusão social por meio da arte, da educação e do empreendedorismo criativo. A parceria com Lucienne reforça o compromisso do Instituto com a economia circular e a valorização do talento local.
Parte da renda obtida com as vendas das bolsas será revertida para manter as atividades do Moinho Cultural. Além disso, a cada dez produtos confeccionados, uma peça será doada para a loja colaborativa do Instituto, fortalecendo o ciclo de solidariedade e sustentabilidade.
A trajetória da artesã que aprendeu a costurar no Moinho Cultural
Lucienne Lopes iniciou sua jornada no artesanato em 2008, quando participou de cursos de reaproveitamento de materiais oferecidos pelo próprio Moinho Cultural. Foi ali que ela aprendeu a costurar malotes e banners, descobrindo que poderia transformar o que seria descartado em algo útil e bonito.
“Tudo começou no Moinho. Foi lá que eu aprendi a trabalhar com o que as pessoas jogavam fora e a enxergar valor onde ninguém via. Encontrei minha vocação”, relembra a artesã.
Com o aprendizado, Lucienne ajudou a fundar a Cooperativa Vila Moinho, um espaço de economia solidária que reúne artesãos, gastrônomos e artistas locais. O grupo chegou a confeccionar figurinos para os espetáculos do Moinho Concert, uma das maiores produções culturais da região pantaneira.
Depois de se mudar para Campo Grande, Lucienne passou a desenvolver um estilo autoral que combina sustentabilidade, identidade regional e design artesanal.
“No começo, eu fazia peças comuns, mas percebi que faltava a nossa identidade. Foi quando comecei a bordar bichos do Pantanal: capivara, tuiuiú, tamanduá, arara… Essa fauna virou minha marca. Hoje, cada peça é única e carrega o orgulho do nosso território”, explica.
A força da parceria com o Sebrae/MS
A conexão entre o ateliê e o Moinho Cultural se consolidou por meio do programa Move Mais, iniciativa do Sebrae/MS voltada ao fortalecimento de pequenos negócios com propósito socioambiental.
De acordo com Isabella Carvalho Fernandes Montello, gerente de Competitividade e Inovação do Sebrae/MS, a parceria nasceu a partir da identificação de uma dificuldade recorrente: o acesso à matéria-prima sustentável.
“Durante o atendimento, percebemos que a Lucienne precisava de um material acessível e com apelo ecológico. A articulação com o Moinho Cultural e os Correios foi uma solução perfeita. Essa rede de colaboração mostra como a sustentabilidade pode caminhar junto com a viabilidade econômica”, destacou Isabella.
O Sebrae tem investido cada vez mais em iniciativas que unam empreendedorismo consciente e impacto social, promovendo capacitações e oportunidades de mercado para artesãos, pequenos produtores e empreendedores criativos.
“Nosso papel é ajudar negócios como o da Lú a crescer com propósito. O sucesso dela mostra que o design sustentável é, sim, um caminho rentável e transformador”, complementou a gerente.
O Pantanal na vitrine do mundo
Com o convite para participar da COP30, o trabalho de Lucienne ganha visibilidade internacional. As bolsas feitas em Mato Grosso do Sul estarão expostas em um dos espaços dedicados à economia criativa e inovação sustentável, levando para o evento global uma mensagem sobre moda consciente, reaproveitamento de materiais e valorização cultural.
Para a artesã, a participação representa mais do que reconhecimento: é uma oportunidade de mostrar ao mundo a força da mulher empreendedora do Pantanal.
“Estou levando um pedacinho do meu Estado e da minha história. Cada costura é uma memória, um símbolo de resistência e de amor pelo que faço. Mostrar isso na COP30 é um sonho realizado”, afirmou emocionada.
Onde encontrar
As peças do Lú Lopes Ateliê podem ser encomendadas pelas redes sociais da artesã e também são comercializadas em feiras de artesanato em Campo Grande e Corumbá. Parte da nova coleção produzida com malotes dos Correios será apresentada oficialmente durante a COP30, em Belém (PA), no final de 2025.
Mais do que acessórios de moda, as criações de Lucienne representam um manifesto pela sustentabilidade, uma celebração da cultura pantaneira e uma inspiração para o futuro da economia criativa no Brasil.
Autoria: Sarah Pacini

