Dados de 2024 mostram o maior número de afastamentos por transtornos mentais em 10 anos no Brasil, com quase meio milhão de licenças médicas. Especialistas apontam as cicatrizes da pandemia e o estresse no mercado de trabalho como fatores principais.

A crise de saúde mental no Brasil atingiu níveis alarmantes em 2024, com um número recorde de afastamentos do trabalho devido a transtornos como ansiedade e depressão. Dados obtidos pelo g1, com exclusividade junto ao Ministério da Previdência Social, revelam que mais de 472 mil licenças médicas foram concedidas no ano passado por motivo de saúde mental, marcando o maior índice desde 2014. Este aumento representa uma elevação de 68% em relação ao número de afastamentos registrados em 2023, um reflexo das crescentes dificuldades enfrentadas por trabalhadores em um cenário de grande pressão psicológica.
O impacto no Brasil
O Brasil tem vivenciado uma década de evolução nos dados relacionados à saúde mental, mas, em 2024, os números atingiram patamares alarmantes. No total, o país registrou mais de 3,5 milhões de solicitações de licença médica no INSS no ano passado, das quais aproximadamente 472 mil foram atribuídas a transtornos mentais, como ansiedade, depressão e outros distúrbios psicológicos. Esse número coloca o Brasil em um cenário de preocupação crescente, onde a saúde mental dos trabalhadores se tornou uma questão urgente de saúde pública e gestão no ambiente corporativo.
A ansiedade e a depressão estão entre os distúrbios mais comuns, sendo os principais responsáveis pelos afastamentos de trabalhadores. O Brasil, ao lado de outros países, tem enfrentado um aumento expressivo na incidência desses transtornos nos últimos anos. Para entender melhor os números, é importante destacar que cada trabalhador pode solicitar múltiplas licenças ao longo do ano, o que eleva ainda mais as estatísticas.
Por trás dos números: a mulher no centro da crise
Uma característica marcante dos dados coletados é que a maioria dos trabalhadores afastados por questões de saúde mental são mulheres (64%), com idade média de 41 anos. Esse perfil reflete as desigualdades sociais que impactam a vida das mulheres, como a sobrecarga de trabalho, a violência doméstica, a menor remuneração e, muitas vezes, a dupla jornada de trabalho. As especialistas apontam que esse quadro já era visível antes da pandemia, mas que os efeitos do isolamento social e as mudanças econômicas intensificaram esses problemas, tornando-os ainda mais graves.
Muitas mulheres que vivem sob a pressão de sustentar suas famílias, enquanto enfrentam o estresse relacionado ao trabalho e à vida pessoal, têm experimentado um esgotamento psicológico sem precedentes. Segundo o psiquiatra Arthur Danila, da Universidade de São Paulo (USP), essa sobrecarga contribui para o aumento da incidência de transtornos mentais, especialmente entre as mulheres, que enfrentam um contexto social e econômico de desigualdade persistente.
A dificuldade de identificar e tratar esses transtornos, principalmente em um ambiente de trabalho onde a cultura do “produtivismo” ainda predomina, também tem agravado a situação. As mulheres, frequentemente mais dispostas a buscar ajuda médica, acabam sendo mais diagnosticadas, o que, por um lado, traz visibilidade à questão, mas, por outro, revela a profundidade do problema.
Fatores que explicam o aumento dos afastamentos
Embora os transtornos mentais sejam multifatoriais, especialistas destacam algumas causas principais para o aumento drástico dos afastamentos em 2024. A crise econômica, a insegurança financeira e as sequelas emocionais deixadas pela pandemia são os fatores mais citados. O luto pelas mais de 700 mil mortes causadas pela Covid-19, o estresse pós-pandemia e a instabilidade econômica geraram um ambiente propenso ao adoecimento mental.
Além disso, a inflação galopante e o aumento do custo de vida, que subiu 55% entre 2020 e 2024, tiveram impacto direto na saúde mental da população. A insegurança com relação ao futuro e a constante pressão por produtividade têm levado muitos trabalhadores ao limite. O aumento da informalidade no mercado de trabalho e as dificuldades de reingresso de trabalhadores demitidos também colaboraram para o agravamento dessa crise.
A pressão no ambiente corporativo também foi mencionada como uma das grandes causas. “Durante a pandemia, muitas empresas passaram por um processo de demissões em massa, e as equipes que permaneceram tiveram que lidar com uma sobrecarga de trabalho”, explica Thatiana Cappellano, especialista em transtornos mentais no ambiente de trabalho. A continuidade dessa pressão, mesmo após o fim da pandemia, tem gerado exaustão entre muitos trabalhadores.
O impacto econômico e social
O aumento dos afastamentos por transtornos mentais não é apenas um reflexo de um problema de saúde pública, mas também tem implicações econômicas significativas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a depressão e a ansiedade causam a perda de 12 bilhões de dias úteis por ano, gerando um custo de cerca de US$ 1 trilhão por ano para a economia global. No Brasil, isso também se reflete em perdas substanciais para as empresas e para o mercado de trabalho como um todo.
A situação se agrava com a falta de apoio adequado em muitos ambientes de trabalho. Apesar de algumas empresas adotarem medidas como programas de apoio psicológico e mudanças nas estratégias de gestão, a maioria ainda não tem estrutura para lidar com as consequências da crise de saúde mental entre seus empregados.
Medidas de enfrentamento
Em resposta a essa crise, o governo brasileiro atualizou a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que estabelece as diretrizes de saúde e segurança no trabalho. Com a nova regulamentação, o Ministério do Trabalho passará a fiscalizar as condições psicossociais nas empresas, impondo multas para aquelas que não implementarem medidas adequadas para prevenir transtornos mentais entre seus colaboradores. Empresas de setores como teleatendimento, bancos e saúde, que apresentam altos índices de adoecimento mental, estão sendo priorizadas nas fiscalizações.
Além disso, especialistas sugerem que as empresas repensem seus modelos de gestão e adotem estratégias mais humanizadas e flexíveis, com foco no bem-estar dos colaboradores. A implementação de programas de apoio psicológico, a revisão das metas de produtividade e a criação de ambientes de trabalho mais colaborativos são apontadas como soluções essenciais para combater o aumento dos transtornos mentais.
A crise de saúde mental no Brasil exige uma ação urgente e eficaz tanto por parte das empresas quanto do governo. O aumento significativo de afastamentos por transtornos mentais é um reflexo das tensões econômicas, sociais e emocionais vividas pela população, especialmente pelas mulheres, que estão mais expostas aos efeitos de uma sociedade desigual. O fortalecimento das políticas públicas e o apoio das empresas são fundamentais para mitigar os impactos dessa crise, que não afeta apenas a saúde dos trabalhadores, mas também a produtividade e o desenvolvimento econômico do país.
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Autoria: Sarah Pacini

