Completando mais de quatro décadas dedicadas à música, o cantor Daniel vive uma fase de transformações na carreira. À frente da turnê Um Novo Tempo e do programa Viver Sertanejo, exibido nas manhãs de domingo da TV Globo, o artista divide seu tempo entre os palcos e as gravações em sua fazenda localizada em Brotas, no interior paulista.
A trajetória de um artista versátil
Reconhecido por marcar a história da música romântica e da moda de viola, o cantor relembra a transição entre diferentes formatos ao longo dos anos, desde a época de dupla até os projetos voltados à música raiz e as atuações na televisão e no cinema.
Daniel: “Eu me defino como um cantor do povo. Tento trazer canções, letras, melodias que vão ao encontro das pessoas que me acompanham, que fazem parte dessa história, desses mais de 40 anos. E sem perder a minha essência, aquilo que eu gosto, com o qual eu me identifico. Apesar de ter passado por momentos muito diferentes, procurei manter, acima de tudo, o romantismo, que é uma marca muito expressiva em tudo que eu faço. A música raiz, que é parte da minha família, eu herdei dos meus pais desde muito pequeno. É o que eu ouvia dentro de casa: música raiz, moda de viola, o sertanejão mesmo. Ao longo do tempo, fui tendo a oportunidade de, além da música romântica, trazer projetos, inclusive, do Meu Reino Encantado, por exemplo, que são canções que envolvem a música raiz, clássicos sertanejos com participações especiais. Foram quatro dessa natureza. Como o próprio Menino da Porteira, a participação na novela Paraíso. E o romantismo também, quando eu participei com a Xuxa, com o Renato Aragão. Essas nuances que surgiram na minha vida de forma natural me fizeram fortalecer aquilo que eu já tenho como natureza.”
Daniel: “Esses convites foram surgindo. Eu percebi que teria condições de fazer e aceitei alguns. Confesso que, em muitos deles, tive um pouco de receio, de medo mesmo, o que eu acho válido, normal. Mas eu acho que o artista também tem essa liberdade de poder fazer coisas diferentes. Eu me deixei permitir participar dessas coisas, porque sabia que, de alguma forma, uma bagagem a mais eu ia acrescentar. Essa coisa, por exemplo, de lidar com câmera, de posicionamento, de tempo. Porque existem diferenças absurdas. Mas eu acho que tudo o que aconteceu, como foi realmente muito natural, eu agi de forma natural. Somente o Menino da Porteira, eu diria, eu tive um preparo mesmo, fiz um laboratório e me conheci ainda mais. Ele me trouxe não só um aprendizado com relação à carreira, mas para minha vida também. Logo após o Menino da Porteira, inclusive, veio a primeira filha. A minha vida foi calcada na minha verdade, na minha essência, no que eu sempre acreditei.”
Novos projetos e a turnê Um Novo Tempo
O repertório atual dos shows busca abrigar clássicos da carreira com uma sonoridade acústica repaginada, unindo a tradição musical ao uso de tecnologias visuais em 3D, em uma série de apresentações que circula pelo país há quase dois anos.
Daniel: “Nesse show, como eu venho das comemorações dos 40 anos, com participações para lá de especiais da nossa música sertaneja, resolvi fazer um repertório que falasse do Daniel e, talvez, um pouco mais dessa nova fase em carreira solo. E eu diria que o novo tempo é todo dia. Porque, a partir do momento que você tem o prazer de poder acordar de manhã, é um novo tempo. E como eu venho vivendo uma virada de página, a gente encontrou essa história de novo tempo, que seria um título bacana para essa turnê. Eu tenho a preocupação de fazer um repertório que atinja de norte a sul do país. As pessoas conhecem, cantam junto. Eu sempre quis fazer um projeto com uma sonoridade acústica. Tem essa roupagem diferente, além de a gente vestir essa coisa tecnológica. Aproveitar a tecnologia para o espetáculo. Visualmente, é bacana. Resolvi trazer imagens diferentes, com resolução totalmente diferente, em 3D. Uni meu repertório, que eu gravei ao longo da minha carreira, com essa roupagem diferente do acústico. A concepção de arranjo é do Anderson Toledo e do Bruno Câmara. O Bruno trouxe uma parte do repertório e o Anderson, outra. O resultado foi muito positivo, e estamos há quase dois anos viajando pelo Brasil.”
Daniel: “Chegar a uma marca expressiva igual a essa é um presente para poucos artistas. E, realmente, começar uma nova etapa. Tenho, hoje, vontade de trazer algo novo por meio do repertório para um futuro próximo. Diante de tudo que eu estou vendo no mercado, de músicas novas, de canções compostas agora, o que está surgindo, as tendências, eu queria trazer algo diferente, porque acho que o artista tem por obrigação trazer algo diferente para os seus fãs. Eu vi um comentário do Sorocaba, concordo com ele: a gente tem que tomar um certo cuidado com coisas que vêm vindo muito parecidas dentro do sertanejo. Tem que encontrar um caminho que, talvez, vá impactar um pouco mais as pessoas, mas uma proposta diferente. Afinal de contas, a música sertaneja sempre foi assim: aceitar coisas diferentes.”
Daniel: “A tecnologia traz algo de muito positivo. Temos hoje um aporte através da IA (inteligência artificial), de tudo que a gente encontra, mas, ao mesmo tempo, eu tenho certo cuidado. Procuro manter a essência, minhas origens, minha sonoridade, e, aí sim, talvez usar a tecnologia para aperfeiçoar. Vou citar um exemplo. Hoje, eu consigo chegar a um show, subir no palco e cantar. Antigamente, era difícil. Tinha que passar o som, nem que fosse um pouco, para entender o que estava acontecendo no seu ouvido. Hoje, você traz sua preferência, um instrumento que quer ouvir, a equalização, através da audiometria que você faz para cuidar da audição também.”
A expansão do programa Viver Sertanejo na TV
O programa dominical, que nasceu como um especial e hoje integra a programação regular da emissora, aproxima-se de sua centésima exibição e de alcançar uma marca expressiva de público.
Daniel: “Eu estava na estrada, quando recebi uma ligação do Amauri [Soares, diretor geral dos Estúdios Globo] me falando sobre um projeto que estava surgindo, do meu nome ter sido citado. Fiquei muito honrado e falei que queria entender melhor, porque eu estava vivendo uma fase diferente, com a chegada da nossa filha mais nova, a Olívia, que está com 4 anos. E ele falou: Vamos conversar. Nessa conversa, houve a possibilidade de o projeto acontecer mais perto de mim. Só não imaginava que seria tão perto assim. Na minha casa. Eu os trouxe para conhecer o espaço, que podia ser uma possibilidade. E eles aceitaram. A logística no começo foi um estranhamento. Acabou dando muito certo, e hoje o programa acontece de uma forma tão espontânea, sabe? A logística é boa, a equipe funciona tão bem. A minha casa está a cerca de 20 minutos daqui da fazenda. No começo, até então, eram 14 programas, se eu não me engano. E acabou dando tão certo que virou grade. Ele é uma marca muito bacana dentro da Rede Globo. E não seria dessa forma se não fosse com a equipe que temos, com a direção, com as pessoas que eu tive a honra de conhecer e que hoje são parte da minha família. É uma extensão da minha casa.”
Daniel: “O sertanejo está em todo lugar. O brasileiro, seja ele de onde for, tem a sua história calcada no sertanejo. É uma grande possibilidade de trazermos aqui pessoas que têm tudo a ver com nossa música, nosso estilo. O Brasil é um país grandioso, onde são vários os estilos predominantes, que se misturam. Eu não vejo o sertanejo sem um forró, um samba, um axé. O Viver Sertanejo provou que está em busca de talentos que falem a mesma língua que a gente, seja o estilo que for. Hoje eu percebo que as pessoas têm uma aceitação melhor, de entender que o programa abre as porteiras para os sertanejos de todas as gerações, mas também para quem tem uma pitadinha do sertanejo e faça um estilo diferente.”
Daniel: “O resultado é muito prazeroso. Eu não estou falando de números, de audiência. Eu acho que hoje eu tenho um pouquinho mais de noção do que Deus colocou na minha frente. Essa missão de divulgar esse estilo que a gente ama, nasceu ouvindo, cresceu ouviningo e vai viver ouvindo, que é o sertanejo. Poder falar de histórias de tanta gente Brasil afora. O que o Viver Sertanejo me traz hoje é a certeza de que é difícil viver sem ele. É uma extensão de tudo o que eu faço.”
Daniel: “É a verdade que a gente passa. É um programa leve, onde tudo que você vê está acontecendo. Essa fazenda não deixa de funcionar. Dependendo do set, é trator passando, caminhão passando, gado berrando, galo cantando, a seriema. A gente está em um hábitat que não é só nosso. É de todos esses animais. Eu não vejo câmera. Talvez seja difícil o momento que eu olhe numa câmera. Eu esqueço da vida. A gente sai gravando, começa a papear, a falar dentro de um roteiro que eu tenho. Temos aqui roteiristas incríveis, a direção maravilhosa. Mas eles me deixam à vontade. Só se ocorre um defeito grandioso, a gente tem que parar para arrumar alguma coisa. Eu acho que as pessoas se veem aqui.”
Daniel: “Eu vou dizer que sou privilegiado, porque sempre vivi assim. As pessoas até perguntavam: Poxa, Daniel, mas você consegue levar uma vida normal?. Sim, apesar de ser uma pessoa pública.Eu vou ao supermercado, ao cinema, ando na rua, consigo fazer isso aqui na minha terra. Viver Sertanejo é isso. Eu só transferi para a fazenda aquilo que eu fazia em casa, quando recebia uma visita, quando cato uma viola na mão para tocar numa roda de família. Essas pessoas que vêm aqui se sentem à vontade também por isso, porque também elas têm um pouquinho do pé na terra, ou bastante o pé na terra, e se sentem em casa. Porque a gente está aqui para tomar um café, conversar, comer um bolinho de fubá, pegar uma viola, um violão e cantar uma moda.”
Fonte: Globo Rural

