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Estudo de morcegos pode ajudar a prevenir novas pandemias

Estudo de morcegos pode ajudar a prevenir novas pandemias

Pesquisas encontraram novos vírus em espécies brasileiras e reforçam a importância da vigilância de animais silvestres

Pesquisas recentes ampliaram o conhecimento sobre os vírus presentes em morcegos no Brasil e levantaram um alerta para a necessidade de fortalecer a vigilância de animais silvestres. Estudos identificaram diferentes sequências virais, incluindo um filovírus inédito nas Américas e um vírus da família do sarampo.

Morcegos estão entre os mamíferos mais diversos do planeta e exercem funções importantes nos ecossistemas, como controle de pragas, polinização e dispersão de sementes. Ao mesmo tempo, algumas espécies podem abrigar diferentes vírus sem apresentar sinais aparentes de doença.

No Brasil, existem pelo menos 186 espécies de morcegos distribuídas em nove famílias e 68 gêneros. Segundo o levantamento apresentado pelo virologista Anderson Brito, menos da metade dessas espécies já foi investigada quanto à presença de vírus, o que revela uma lacuna no conhecimento científico.

Pesquisas identificam novos vírus

Pesquisadores da América Latina e da Europa identificaram, de forma inédita, um Morbillivirus em morcegos silvestres da região. O grupo de vírus inclui o agente causador do sarampo.

Também foram encontrados vírus semelhantes em saguis no Brasil, com características que indicam potencial de transmissão entre espécies.

Outro estudo, realizado pelo Instituto Todos pela Saúde (ITpS) em parceria com a Prefeitura de São Paulo e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), identificou 114 sequências virais em morcegos urbanos.

Entre os achados está um filovírus ainda não identificado nas Américas. A família desse vírus inclui agentes causadores de doenças como o ebola.

Pesquisas realizadas em diferentes países também vêm identificando novos coronavírus em morcegos. Esses resultados reforçam o interesse científico nesses animais, que já são conhecidos como hospedeiros de vírus relacionados a doenças como ebola, hendra, nipah, MERS e SARS.

Por que os morcegos chamam atenção dos pesquisadores

Uma das características que despertam interesse científico é o sistema imunológico dos morcegos. Esses animais conseguem conviver com diferentes vírus sem desenvolver, na maioria das vezes, respostas inflamatórias intensas.

A capacidade de voar e percorrer grandes distâncias também favorece a circulação desses animais por áreas extensas. Com isso, os vírus presentes em determinadas populações podem ser estudados para entender melhor como circulam na natureza.

Mudanças ambientais também aumentam a preocupação dos pesquisadores. O avanço das áreas urbanas e o desmatamento podem aproximar pessoas, animais domésticos e espécies silvestres, ampliando as oportunidades de contato.

Isso não significa que morcegos sejam uma ameaça por si só. Pelo contrário, eles têm funções importantes para o equilíbrio ambiental. O foco da vigilância é identificar precocemente agentes que possam representar risco à saúde humana ou animal.

Vigilância ainda é concentrada em outras áreas

No Brasil, parte importante da vigilância sanitária está concentrada na produção pecuária, devido à importância econômica do setor e ao acompanhamento de doenças que podem afetar os rebanhos.

Morcegos e outros animais silvestres, porém, também podem participar da cadeia de circulação de agentes infecciosos. Por isso, pesquisadores defendem que o monitoramento desses animais seja ampliado.

A raiva já é acompanhada em morcegos por órgãos municipais e estaduais. Essa estrutura, segundo a análise apresentada pelo especialista, poderia servir de base para ampliar a identificação de outros vírus que circulam entre esses animais.

Uma das ferramentas disponíveis é a análise metagenômica, que permite identificar diferentes materiais genéticos presentes em uma amostra. Dessa forma, pesquisadores podem encontrar vírus em circulação antes que uma doença seja detectada em seres humanos.

Monitoramento pode ajudar na prevenção

A proposta de ampliar a vigilância não significa esperar o surgimento de uma nova doença para agir. O objetivo é conhecer os vírus que circulam entre animais silvestres e identificar sinais que possam indicar riscos futuros.

Em uma oficina técnica realizada pelo ITpS em parceria com a Opas e o Ministério da Saúde, pesquisadores discutiram justamente o uso do monitoramento de morcegos como estratégia para identificar precocemente agentes com potencial de provocar epidemias ou pandemias.

Para especialistas, investir nesse tipo de pesquisa pode ajudar a antecipar respostas de saúde pública e reduzir o tempo necessário para identificar novos agentes infecciosos.

Como agir ao encontrar um morcego

Apesar do interesse científico, a orientação para a população é simples: não tocar nem tentar manipular morcegos, principalmente quando o animal estiver caído, morto ou apresentar comportamento incomum.

Nessas situações, a recomendação é procurar o serviço de zoonoses ou outro órgão responsável no município. As equipes poderão avaliar a situação e, quando necessário, fazer a retirada do animal de maneira segura.

Além de proteger as pessoas contra possíveis riscos, o cuidado evita a manipulação desnecessária de animais que exercem funções importantes no ambiente.

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