Fitoterapia na menopausa: o que a ciência revela sobre os remédios naturais

Fitoterapia na menopausa: o que a ciência revela sobre os remédios naturais

Diante do receio — muitas vezes infundado — em relação aos tratamentos hormonais para amenizar os sinais da menopausa, diversas mulheres optam pelos fitoterápicos. No entanto, é preciso avaliar se o poder terapêutico dessas plantas se equipara aos hormônios e quais são os riscos envolvidos.

O papel dos fitoestrógenos no organismo

Uma grande parcela dos compostos naturais indicados para essa fase da vida conta com os chamados fitoestrógenos. “São moléculas que possuem uma estrutura química parecida com a do estrogênio [hormônio cuja produção diminui no climatério] e ligam-se aos receptores celulares deste hormônio”, explica Marçal.

Apesar de agirem por vias biológicas semelhantes, eles não podem ser encarados como substitutos automáticos da terapia de reposição hormonal (TRH), em especial para pacientes que possuem restrições médicas severas.

O grupo de risco inclui mulheres que já enfrentaram cânceres dependentes de hormônios, histórico de infarto, acidente vascular cerebral (AVC), trombose, problemas hepáticos graves, sangramentos vaginais inexplicáveis ou portadoras de porfiria. Nestes casos, o acompanhamento médico deve ser redobrado. “Não agem da mesma forma que o estrogênio natural ou sintético e não substituem a terapia de reposição hormonal (TRH)”, afirma a farmacêutica. “Faltam evidências clínicas de segurança de longo prazo em humanos.”

Ação antioxidante e a influência da flora intestinal

Na maior parte das situações, os extratos vegetais funcionam como um suporte benéfico. As pesquisas indicam que essas substâncias ajudam a diminuir o estresse oxidativo e os processos inflamatórios nos tecidos.

“A principal função deles é exercer uma ação anti-inflamatória e antioxidante”, define a farmacêutica. “É como se eles ‘limpassem a casa’ para que o estrogênio remanescente do corpo ou da reposição hormonal atue de forma mais eficaz.”

Além disso, o sucesso do tratamento depende diretamente da saúde do intestino. “A transformação de fitoestrógenos, como a genisteína (da isoflavona de soja), em uma molécula ativa com ação estrogênica (chamada ecol) depende diretamente das bactérias intestinais que possuem a enzima beta-glicosidase”, detalha Marçal. Como a microbiota intestinal varia entre as mulheres e responde de forma direta à dieta — especialmente ao consumo de fibras prebióticas presentes em grãos, verduras e frutas —, os resultados do uso de fitoterápicos são altamente individualizados.

Limitações temporais e necessidade de novas pesquisas

O alívio proporcionado pelas plantas costuma ser mais eficiente quando os sintomas são leves ou moderados, apresentando melhores resultados logo no início da perimenopausa. “Os fitoterápicos funcionam melhor no início da perimenopausa, quando as flutuações hormonais ainda não são drásticas”, adverte.

Além disso, a carência de investigações científicas de longo prazo — visto que a maioria dos testes dura apenas algumas semanas — exige cautela quanto à segurança prolongada desses compostos. Fatores como o cultivo e a concentração dos extratos também influenciam diretamente no resultado final.

O raio-x dos principais fitoterápicos

Cada substância natural apresenta características e restrições específicas que devem ser rigorosamente avaliadas por profissionais de saúde:

  • Isoflavona de soja: Conta com o maior nível de evidência para atenuar fogachos, melhorar a lubrificação e estimular o colágeno, mas depende da microbiota intestinal.
  • Cimicífuga: “Tem evidência fraca a baixa para redução direta de fogachos, com resultados próximos ao placebo em ensaios, mas apresenta benefícios comprovados na melhora do humor, disposição e qualidade de vida”, afirma.
  • Ginseng: Atua como vasodilatador e foca na cognição, mas exige cautela. “É um vasodilatador mais estudado para foco e cognição. Um alerta crucial é que ele não deve ser usado por mais de 30 dias seguidos, pois possui uma atividade anticoagulante relevante, oferecendo risco de sangramento”, alerta a especialista.
  • Óleo de prímula: Rico em ômega-3 e vitamina E, combate inflamações e melhora o sono. “Deve ser utilizado em ciclos de até 3 meses, com pausas, pois o organismo tende a se habituar”, adverte.
  • Valeriana e melissa: Atuam como calmantes naturais e auxiliam na indução do sono diante da ansiedade típica do período.
  • Ashwagandha: Não possui comprovação sólida para o controle dos sintomas da menopausa e carrega riscos hepáticos, tendo o uso restrito ou proibido em diversos países da Europa e pela Anvisa no Brasil.

Portanto, embora os fitoterápicos representem um suporte valioso para muitas mulheres, seu emprego exige orientação médica especializada, respeito aos limites de tempo e compreensão de que eles não substituem os tratamentos hormonais tradicionais.

Fonte: Revista Veja Saúde

Arquivos Relacionados

Deixe um comentário