Irmã Aline Pereira Ghammachi, natural do Amapá, nega acusações de má conduta e diz ter sido alvo de preconceito por ser mulher, brasileira e “bonita demais” para a vida religiosa

A brasileira Aline Pereira Ghammachi, de 41 anos, natural de Macapá (AP), está no centro de uma polêmica internacional que envolve fé, poder e denúncias de discriminação dentro da Igreja Católica. Ela foi removida do cargo de madre-abadessa do Mosteiro San Giacomo di Veglia, na Itália, após ser alvo de uma investigação interna motivada por uma denúncia anônima que a acusava de maus-tratos e desvio de recursos.
Aline, que nega veementemente todas as acusações, afirma estar sendo vítima de perseguição e preconceito, e recorreu ao Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, instância máxima da Justiça eclesiástica, para tentar reverter sua destituição. O caso ganhou repercussão após uma entrevista concedida pela freira ao portal g1, nesta segunda-feira (12), em que ela revelou ter ouvido do superior da ordem que “era bonita demais para ser freira”.
“O frei Mauro Lepori disse que, se eu levasse minha defesa ao Vaticano, ninguém acreditaria em mim porque sou mulher, brasileira e bonita. Isso me feriu profundamente”, relatou Aline.
Afastamento coincide com a morte do papa Francisco
A remoção da madre ocorreu em 21 de abril de 2025 — a mesma data da morte do papa Francisco, evento que abalou o mundo católico. A freira alega que não teve chance de apresentar sua defesa de forma justa antes da decisão e afirma que as contas da sua gestão, referentes aos cinco anos à frente do mosteiro, foram aprovadas após auditoria realizada pela própria diocese.
“O que mais pesava nas acusações era a questão de abuso de poder, maus-tratos e desvio de verbas. A parte financeira foi resolvida com a auditoria. Agora só busco a Justiça”, declarou.
Denúncias surgem após carta enviada ao Vaticano
A origem das acusações remonta a 2023, quando uma carta anônima foi enviada ao papa Francisco. Aline acredita que o conteúdo partiu de um grupo que se opôs às mudanças que ela promoveu no mosteiro durante sua administração.
Durante o seu período à frente da comunidade religiosa, o Mosteiro San Giacomo di Veglia passou a desenvolver projetos sociais, como acolhimento de mulheres vítimas de violência, apoio a pessoas com transtorno do espectro autista e implantação de uma horta comunitária, com cultivo de uvas e hortaliças.
Crise interna após saída da madre
A situação se agravou após a nomeação de uma nova responsável pelo mosteiro. Em menos de um mês, 11 religiosas deixaram o local, e cinco delas prestaram queixa à polícia italiana, alegando sofrer violência psicológica da nova gestora. Para muitos, isso reforça a suspeita de que as acusações contra a ex-madre foram motivadas mais por questões políticas e internas do que por condutas concretas.
O Vaticano ainda não se pronunciou oficialmente sobre o caso, apesar de já ter sido questionado pela imprensa.
De Macapá ao comando de um mosteiro europeu
A trajetória religiosa de Aline começou ainda na adolescência. Aos 15 anos, ela expressou o desejo de se tornar freira, mas só decidiu seguir a vida religiosa após concluir o curso superior de Administração, em Macapá, em 2004.
No ano seguinte, mudou-se para a Itália e ingressou no convento onde, anos mais tarde, se tornaria líder. Em 2018, aos 34 anos, foi nomeada madre-abadessa, tornando-se a mais jovem a ocupar esse cargo em toda a Itália na época.
Seu trabalho à frente da congregação foi marcado por ações voltadas ao social, e por um estilo de gestão moderno, que incomodou alas mais conservadoras da Igreja, segundo ela própria relata.
“Só quero Justiça”, diz Aline
Apesar das dificuldades, a religiosa segue determinada a provar sua inocência e retomar sua missão. “Eu jamais desrespeitei minhas irmãs ou desviei recursos. Minha gestão foi transparente e aprovada pelas autoridades eclesiásticas locais. O que me dói é ser descredibilizada por minha aparência ou nacionalidade”, afirmou.
Ela acrescenta que permanece na Itália e que está disposta a lutar até as últimas instâncias. “Tenho fé de que a verdade vai prevalecer. Eu não quero vingança, só quero Justiça. Tenho minha consciência tranquila e continuo minha vida de oração.”
O silêncio do Vaticano
Até a última atualização desta reportagem, o Vaticano não havia respondido oficialmente aos pedidos de esclarecimento sobre o caso. O silêncio da instituição aumenta a curiosidade e preocupação de muitos fiéis, especialmente no Brasil, onde a religiosa ganhou visibilidade após fotos suas com o papa Francisco, em 2022, circularem amplamente nas redes sociais.
O caso da freira Aline expõe não apenas um embate interno dentro da Igreja, mas também um possível caso de machismo e preconceito estrutural contra uma mulher que ousou ocupar um espaço de liderança — sendo jovem, brasileira e, como ela mesma diz, julgada por sua aparência.
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Autoria: Sarah Pacini

