Todos os 180 candidatos foram eliminados na fase oral; suspeitas de manobra para aumento de verbas e acúmulo de funções tomam conta das redes

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) está no centro de uma grande controvérsia após a reprovação de 100% dos candidatos na fase oral do XXX Concurso Público para Promotor de Justiça Substituto. O resultado, divulgado na segunda-feira (2), chocou os 180 participantes que ainda estavam na disputa e gerou uma onda de indignação entre concurseiros e especialistas em concursos públicos em todo o país.
Realizado sob organização da Fapec (Fundação de Apoio à Pesquisa, ao Ensino e à Cultura), o certame prometia preencher vagas para o cargo com remuneração inicial superior a R$ 30 mil. No entanto, nenhum candidato foi aprovado na segunda fase, o que levantou suspeitas sobre os reais objetivos da seleção.
Revolta e desconfiança nas redes sociais
A reação foi imediata nas redes sociais. Memes, desabafos e críticas à banca organizadora e ao próprio MPMS tomaram conta de plataformas como X (antigo Twitter) e Instagram. Candidatos acusam o Ministério Público de utilizar o concurso como um mecanismo de arrecadação, uma vez que todos os participantes pagaram taxas e investiram tempo e recursos na preparação para as etapas do certame.
“100% de reprovação na 2ª fase do MPMS. Nenhum dos 180 candidatos aprovados pra oral”, publicou um usuário. Outro candidato reprovado ironizou a situação: “Fui uma das 100% pessoas reprovadas na 2ª fase do MPMS. Que Deus tenha misericórdia de nós, porque ninguém mais tem”.
O sentimento é compartilhado por muitos. Uma participante que havia obtido 78 de 100 pontos na primeira fase — seis acima da nota de corte — relatou o desânimo com o desfecho da prova oral. “É um completo absurdo investir tanto em um concurso e não haver um único aprovado. Isso não é avaliação, é sabotagem”, desabafou.
Suspeitas de manipulação e benefícios internos
Além da frustração com o resultado, uma série de internautas levantou hipóteses sobre uma possível estratégia do MPMS para beneficiar internamente seus próprios membros. A principal suspeita é de que, com a não nomeação de novos promotores, os atuais membros da instituição possam acumular funções e, com isso, receber gratificações e aumentos salariais.
“Agora o MPMS tem o orçamento de 180 possíveis nomeações para usar como bem entenderem. O CSJT fez isso com servidores, usou o valor das nomeações para pagar salários”, denunciou um internauta.
A ausência de transparência no processo também alimentou o clima de desconfiança. A nota divulgada pelo MPMS no site institucional não menciona em nenhum momento a reprovação geral. O texto se limita a relatar os procedimentos técnicos da cerimônia de abertura dos envelopes, destacando a inviolabilidade dos malotes, a leitura dos códigos e notas, mas omite o resultado em si.
Cerimônia de encerramento sem justificativas
A sessão de identificação das provas e divulgação das notas ocorreu de forma híbrida, ou seja, presencial e online. No entanto, os candidatos alegam que a transmissão online não estava disponível publicamente. Participaram do evento o Procurador-Geral de Justiça, Romão Ávila Milhan Junior, e membros da comissão organizadora do concurso.
Durante a cerimônia, o procurador-geral agradeceu os membros da banca e elogiou a atuação dos envolvidos. “Gostaria de cumprimentar a banca examinadora e os demais integrantes da comissão. Agradeço especialmente pelo trabalho de correção realizado ao longo destes quatro meses, mesmo diante das atribuições regulares de cada um. Foram sete provas que exigiram uma análise minuciosa e criteriosa”, declarou, sem qualquer menção à ausência de aprovados.
A falta de explicações e a recusa em divulgar o motivo da reprovação em massa estão sendo interpretadas como um sinal de que algo não foi conduzido de maneira justa. A desproporcionalidade entre o número de candidatos e o resultado, especialmente diante de uma fase oral subjetiva, intensifica os questionamentos.
Clamor por investigação e revisão do certame
Diante da repercussão negativa, cresce a pressão para que órgãos de controle, como o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), acompanhem de perto o caso. Grupos de concurseiros organizam abaixo-assinados, protestos virtuais e articulações para que o concurso seja auditado ou mesmo anulado.
“A falta de transparência nesse concurso é uma afronta à meritocracia e à fé pública. Um processo seletivo dessa importância não pode ser conduzido como se fosse um ato administrativo qualquer”, disse um advogado que acompanhava o certame.
Caso o concurso seja mantido como encerrado, o MPMS poderá utilizar as vagas previstas para redistribuir responsabilidades entre os promotores já atuantes, prática comum em situações de vacância. Contudo, essa manobra, mesmo que legal, poderá comprometer a qualidade da atuação do Ministério Público, além de aumentar ainda mais o abismo entre o sistema de justiça e a população.
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Autoria: Sarah Pacini

