Nascimento foi o primeiro registrado na ilha desde 2021; gestantes residentes costumam ser levadas ao Recife após a 28ª semana
Mulher deu à luz no Hospital São Lucas, em Fernando de Noronha, no domingo (26), após descobrir a gravidez durante o atendimento médico. O nascimento foi o primeiro registrado no arquipélago desde 2021.
A paciente, que trabalhava temporariamente em uma pousada, procurou a unidade com dores na região lombar que se estendiam até a pelve. Ela afirmou que não sabia estar grávida.
Durante a avaliação, a equipe constatou que a gestação já estava na 41ª semana e que o trabalho de parto se encontrava em estágio avançado. Sem tempo para transferência, o bebê nasceu no hospital da ilha.

Mãe e bebê foram levados ao Recife
O parto foi concluído sem intercorrências graves informadas. Na segunda-feira (27), a mulher e o recém-nascido foram transferidos para o Recife.
Na capital pernambucana, o bebê passaria por exames de acompanhamento que não estão disponíveis em Fernando de Noronha, como o teste do pezinho.
A distância entre o arquipélago e o Recife é de aproximadamente 545 quilômetros.
Ilha não tem maternidade desde 2004
Embora não exista uma lei que proíba expressamente os nascimentos em Fernando de Noronha, os protocolos locais determinam a transferência das gestantes residentes para o continente na fase final da gravidez.
A medida está em vigor desde 2004, quando a maternidade do Hospital São Lucas foi fechada. A unidade é o único hospital do arquipélago e não possui estrutura completa para atender partos e possíveis complicações.
O hospital é classificado como serviço de média complexidade e não dispõe de Unidade de Terapia Intensiva. A falta de UTI e de equipes especializadas dificulta o atendimento de emergências envolvendo a gestante ou o bebê.
Gestantes deixam a ilha na 28ª semana
A partir da 28ª semana de gestação, as moradoras são encaminhadas ao Recife acompanhadas por uma pessoa de sua escolha.
Segundo o modelo adotado pelo governo de Pernambuco, as despesas com transporte, hospedagem e alimentação são custeadas pelo poder público.
A estratégia foi mantida porque a administração estadual considera mais viável financiar a permanência das gestantes no continente do que sustentar uma maternidade completa para uma população inferior a 3,2 mil habitantes.
A política é questionada por moradores, que defendem uma estrutura hospitalar capaz de permitir partos seguros no próprio arquipélago.
Casos excepcionais ainda acontecem
Os raros nascimentos na ilha ocorrem quando a gravidez não é identificada anteriormente ou quando a mulher entra em trabalho de parto sem tempo suficiente para ser transferida.
O último caso havia ocorrido em 2021. Naquele ano, uma turista de 33 anos chegou a Fernando de Noronha na 32ª semana da gestação e entrou em trabalho de parto durante a viagem.
Ela também foi atendida no Hospital São Lucas, apesar de a unidade não possuir maternidade.
Regras para turistas geram questionamentos
Moradores apontam diferenças entre as regras aplicadas às residentes e às visitantes. Enquanto mulheres que vivem na ilha são encaminhadas ao continente a partir da 28ª semana, turistas podem chegar ao arquipélago em etapas mais avançadas da gestação.
Em 2020, a empresária Alyne Dias de Luna tentou permanecer em Noronha durante a pandemia de Covid-19 por receio de viajar ao Recife.
Uma decisão judicial, porém, determinou a transferência. O episódio foi abordado no documentário “Proibido Nascer no Paraíso”, lançado em 2021, que retrata os impactos sociais e emocionais da política sobre as gestantes da ilha.


