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Pix cresce 54% e provoca ‘crise do troco’ no comércio

Pix cresce 54% e provoca ‘crise do troco’ no comércio

Comerciantes enfrentam escassez de dinheiro em espécie e adotam soluções criativas para manter o atendimento ao cliente sem prejuízo

A semana começa com um tema que vem movimentando o comércio em Mato Grosso do Sul: a popularização do Pix, que embora tenha tornado as transações mais ágeis e seguras, também trouxe um desafio inesperado — a falta de troco no caixa. Com um crescimento de 54% no uso do Pix como principal forma de pagamento entre clientes de micro e pequenos empreendedores no estado, a circulação de dinheiro físico caiu drasticamente, gerando uma nova realidade nos balcões de vendas.

Dados do Sebrae/MS, em parceria com o IBGE, mostram que o estado lidera o ranking nacional no uso do Pix para compras e contratação de serviços, segundo levantamento de 2023. O impacto dessa digitalização, no entanto, é sentido no cotidiano dos comerciantes: cédulas e moedas sumiram dos caixas, e a “crise do troco” virou um desafio diário.

“Já faz quatro meses que não vejo dinheiro em espécie aqui na loja”, relata João Pedro de Paiva, de 19 anos, que trabalha no comércio em Campo Grande. Apesar de reconhecer os benefícios do Pix, como agilidade e praticidade, ele afirma que a situação se complica ao atender clientes mais idosos. “Muitos não têm acesso à internet ou dificuldade com tecnologia. Quando pagam em cédulas, temos que buscar troco na matriz”, explica.

Adaptar-se ou perder venda

Diante da escassez de dinheiro vivo, a palavra de ordem no comércio é adaptação. Os comerciantes sul-mato-grossenses passaram a buscar soluções criativas para manter o bom atendimento sem comprometer o faturamento.

Everton Castanha, de 48 anos, decidiu transformar o problema em solução. “Já que o dinheiro sumiu por causa do Pix, resolvi usar o Pix para dar o troco também”, comenta. Segundo ele, muitos clientes aceitam receber o troco via transferência. “A gente explica, pergunta se pode ser assim, e na maioria das vezes funciona. O cliente entende, porque já está acostumado com o digital.”

Já a comerciante Rosângela Amaro, de 55 anos, prefere manter uma pequena reserva em espécie, justamente para atender quem ainda resiste ao mundo digital. “Alguns clientes não têm Pix ou não querem usar. Por isso, sempre deixo um valor guardado. Mas ofereço o troco por Pix também. Funciona, principalmente porque não tem taxa se você não ultrapassa o limite mensal”, pontua.

Menos moedas, mais praticidade

A mudança no hábito de consumo não é exclusividade de Mato Grosso do Sul. A tendência é nacional. A 7ª edição da pesquisa “O Brasileiro e sua Relação com o Dinheiro”, do Banco Central, revelou que o Pix já é utilizado por 76,4% da população. Em segundo lugar está o cartão de débito (69,1%), seguido de perto pelo dinheiro em espécie (68,9%). No recorte de uso mais frequente, o Pix também lidera: 46,1% das pessoas o utilizam como forma principal de pagamento.

Esse crescimento acelerado reflete diretamente nas operações comerciais. Menos papel-moeda circulando significa mais dificuldade para troco — um elemento essencial, principalmente em vendas de menor valor. Com a alta adesão ao Pix, moedas de R$ 0,50 ou R$ 1 se tornaram quase relíquias.

Associação Comercial vê oportunidades no digital

Para a ACICG (Associação Comercial e Industrial de Campo Grande), o fenômeno é positivo, apesar dos ajustes iniciais. O vice-presidente da entidade, Omar Aukar, afirma que a redução da circulação de cédulas não é motivo de preocupação generalizada no setor. “É um processo de transição natural. O Pix é rápido, seguro e sem burocracia. A maioria dos comerciantes está se adaptando, e os clientes também”, destaca.

Aukar reconhece que ainda há dificuldades em algumas localidades, principalmente em áreas rurais e cidades com infraestrutura limitada de internet. “Mas isso tende a melhorar com os investimentos em telecomunicações já previstos para os próximos anos. O digital é o caminho, e o Pix é só o começo”, afirma.

E o consumidor, como reage?

Para muitos clientes, a praticidade de pagar com um clique no celular é irresistível. Mas nem todos estão preparados para essa mudança. Ainda há quem prefira o dinheiro físico pela sensação de controle maior sobre os gastos. Outros simplesmente não confiam em operações digitais.

Enquanto isso, comerciantes seguem testando soluções para equilibrar a preferência pelo Pix com as necessidades práticas do dia a dia. Desde oferecer balas como troco simbólico até colocar placas informando a possibilidade de troco via Pix, a criatividade virou aliada da sobrevivência no varejo.

O futuro do comércio é híbrido

Com base nos dados atuais e nas mudanças comportamentais em curso, a tendência é de que o comércio caminhe para um modelo híbrido, em que dinheiro em espécie, cartões e Pix coexistam — pelo menos por mais alguns anos. A transição completa para o digital ainda esbarra em questões como inclusão digital, segurança e acesso à tecnologia.

Enquanto isso, o pequeno comerciante de Mato Grosso do Sul segue fazendo o que sempre fez: encontrando maneiras de atender bem, mesmo em meio às transformações. Afinal, na crise ou na inovação, o jeitinho brasileiro continua sendo um dos maiores ativos do varejo nacional.

Para mais notícias sobre tecnologia, confira o Portal E-Brasil.

Autoria: Sarah Pacini

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