Com 10 metros de altura, peça tombada de 1936 é cuidada com dedicação semanal por Sueide Torres, último relojoeiro da cidade

Três Lagoas (MS) – Em uma rotina que se repete há mais de duas décadas, Sueide Silva Torres, de 72 anos, sobe cuidadosamente até o topo de um dos monumentos mais emblemáticos de Três Lagoas, o relógio da Praça da Bandeira. Construído em 1936, o relógio mecânico, apelidado de “Senhor do Tempo”, é um símbolo da cidade – e só continua em funcionamento graças ao trabalho incansável de um homem que transformou a herança familiar em missão de vida.
Desde 1999, Sueide é o responsável por dar corda, lubrificar engrenagens, limpar os mostradores e garantir que os sinos que marcam as horas continuem tocando. A cada semana, ele entra na torre do relógio para evitar que os dois pesos de 100 kg cheguem ao chão e parem de movimentar os ponteiros. “Se o peso encostar no chão, o relógio para de funcionar e de bater as horas. Eu sou o único que sabe como mantê-lo vivo”, conta, com orgulho.
Tradição passada de geração em geração
A história de Sueide com os relógios começou muito antes desse compromisso com o tempo público da cidade. Ele é terceira geração de relojoeiros, profissão que começou com seu avô e foi passada para o pai, que também trabalhava como ourives. “Nasci dentro de uma relojoaria. Desde os 10 anos eu mexo com engrenagens. Queria ser engenheiro mecânico, mas a vida me levou a consertar o tempo”, brinca.
Depois de trabalhar no Sesc e se formar em contabilidade e ciências econômicas, Sueide montou sua própria ótica e relojoaria em 1980. “Sempre gostei mais dos mecânicos antigos. Hoje em dia, relógio é tudo movido a pilha, sem alma. Eu gosto dos que têm história, que você escuta funcionando.”
Manutenção exige precisão, cuidado e paixão
Manter o relógio histórico em funcionamento não é tarefa simples. Sueide realiza uma manutenção semanal, na qual usa uma manivela para erguer os pesos que movimentam o mecanismo. Ele também se dedica à limpeza interna das engrenagens, à lubrificação das peças, e à remoção dos dejetos de pombos que se acumulam na parte superior da estrutura.
“Todo ano eu desmonto o relógio completamente para uma revisão geral. Restauro ponteiros, visor, fechadura da porta e até a iluminação. Antigamente eram lâmpadas comuns, hoje coloquei LEDs para melhorar a visibilidade. De fora ninguém percebe, mas lá dentro é tudo adaptado para durar.”
O funcionamento do relógio também depende das variações climáticas, como explica Sueide: “No calor, ele tende a adiantar, e no frio, atrasa. Tem que regular com precisão. É uma máquina viva, que responde ao ambiente”.
Um patrimônio que quase se perdeu
O relógio foi construído pela família Vitaliano Michelini durante a gestão de Bruno Garcia, em 1936. Hoje, com tombamento municipal, é uma das últimas construções históricas preservadas no centro da cidade. Com 10 metros de altura e quatro mostradores, a torre é um marco no cruzamento da Avenida Antônio Trajano com a Rua Paranaíba, ao lado da Praça Ramez Tebet, ponto tradicional de encontros e eventos.
Apesar do seu valor histórico, o relógio correu risco de abandono em 1999, quando o taxista que dava corda no mecanismo não conseguiu fazê-lo voltar a funcionar. “Me chamaram na prefeitura. Passei a noite inteira lá, desmontando, lavando e montando tudo de novo. Às 6h30 da manhã do dia 7 de setembro, ele estava funcionando de novo. Desde então, nunca mais parou.”
Uma profissão em extinção
Sueide destaca que é o único relojoeiro mecânico em Três Lagoas – e um dos poucos em Mato Grosso do Sul. Hoje, ele também fabrica peças sob medida para os raros relógios antigos que ainda aparecem em sua oficina. “Esses relógios novos não têm reparo. Troca-se a máquina inteira. Com os antigos, a gente cria a peça que falta, ajusta na mão. Isso é arte e técnica juntas.”
Com o tempo, Sueide passou a ser reconhecido não só como relojoeiro, mas como guardião de um pedaço da história da cidade. Já recebeu homenagens e vê sua missão como um legado.
“É gratificante saber que o tempo continua correndo por minha causa. O som do sino batendo cada hora, os ponteiros girando… isso é um pedaço da alma de Três Lagoas.”
Curiosidade histórica: o “IIII” em vez do “IV”
Um detalhe curioso sobre o relógio é que, em um dos mostradores, o número quatro está representado pela grafia “IIII”, e não o tradicional “IV”. Embora não seja um erro, a escolha segue uma tradição histórica presente em relógios europeus antigos, para manter o equilíbrio visual com os outros numerais.
Autoria: Sarah Pacini
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