A baixa adesão às campanhas de imunização contra a covid-19 e a influenza entre mulheres grávidas tem acendido um alerta vermelho na saúde pública brasileira. Enquanto algumas futuras mamães mantêm a caderneta em dia, índices oficiais revelam um cenário de vulnerabilidade para grande parte do público-alvo, impactando diretamente a segurança materna e o desenvolvimento dos bebês.
As estatísticas oficiais refletem o tamanho do desafio
Em 2025, o índice de imunização contra a covid-19 entre as grávidas ficou em apenas 55%, enquanto a proteção contra a influenza alcançou 63% nas principais regiões do país. Os dados parciais do período atual indicam uma leve melhora na vacinação contra a gripe, que subiu para 76%, mas a cobertura contra o coronavírus permanece estagnada nos mesmos 55%. O patamar desejado pelas autoridades sanitárias para ambos os imunizantes é de 90%.
O impacto da hesitação na saúde das mulheres
As consequências dessa retração na procura pelos postos de saúde aparecem em estatísticas severas de morbidade e mortalidade. Entre 2022 e agosto de 2026, pelo menos 286 futuras mães ou puérperas desenvolveram síndrome respiratória aguda grave por influenza, resultando em 25 óbitos. No mesmo recorte temporal, o coronavírus provocou 205 quadros severos e 21 mortes, números que se somam às 811 vidas perdidas durante os anos críticos da pandemia.
Para a diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Flávia Bravo, dois fatores são centrais para entender esses índices: a acomodação no caso da influenza, e a desinformação, quando se trata da covid-19.
“Em relação à gripe, as pessoas ainda pensam ‘será que essa vacina é tão importante assim?’. Há uma desvalorização da doença. Já sobre a covid-19 prevaleceu esse mito de que é uma vacina experimental, feita às pressas, o que é mentira. É uma tecnologia antiga, e conseguiu-se adaptá-la mais rápido para a covid-19 porque teve colaboração do mundo inteiro e muito investimento”, aponta.
A proteção estendida aos recém-nascidos
Além de resguardar a própria saúde, a vacinação durante a gestação atua como um escudo protetor para os bebês, que só podem iniciar seu próprio calendário de imunização aos seis meses de idade. Até lá, o repasse de anticorpos via placenta é fundamental para evitar internações hospitalares e quadros graves causados por vírus respiratórios e outras infecções na primeira infância.
A ginecologista Giuliane Lajos orienta que todas essas vacinas devem constar no checklist básico das gestantes, em vez de serem encaradas como uma opção ou cuidado extra. “Eu até faço uma piada: ‘menos chá revelação e mais vacinação’. Porque, menina ou menino, o que você quer na verdade é um bebê saudável e estar saudável para cuidar dele.”
A especialista da Comissão Nacional Especializada em Vacinas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) explica que as gestantes precisam ter cuidado redobrado com infecções diversas, porque são naturalmente mais vulneráveis ao contágio e podem adoecer com mais gravidade.
“Quando você engravida, metade do bebê vem da sua genética e outra metade vem do parceiro. Para aceitar esse ‘implante’ dentro do útero, ocorrem várias alterações no sistema imunológico da mulher. Além disso, com a gravidez mais avançada, o espaço pulmonar diminui e algumas funções do corpo pioram.”
Por isso, é tão importante garantir todas as proteções vacinais disponíveis. “Se estiver vacinada, às vezes a mulher pode até ter uma infecção, mas não vai ser com gravidade”, acrescenta Giuliane.
O papel fundamental das redes de atendimento
O combate à desinformação e o incentivo direto nas unidades básicas de saúde demonstram eficácia na captação das pacientes. A articulação entre médicos de família, agentes comunitários e os próprios postos de atendimento assegura que as doses sejam aplicadas com agilidade logo nas primeiras consultas de pré-natal, reduzindo as chances de desistência ao longo dos meses de gestação.
A médica de saúde da família Catarina Jatobá de Souza, que atiende Nataly na Clínica da Família Ricardo Lucarelli, no centro do Rio de Janeiro, explica que o cartão de vacinação é conferido logo na primeira consulta e, sempre que é preciso tomar uma dose, a gestante já é encaminhada para a sala de vacina ao lado. “Isso é muito oportuno porque a gestante já aproveita o dia da consulta para fazer as duas coisas, e a gente sabe que, se essa vacinação for marcada para outro dia, pode haver uma perda. Por isso, a gente também tenta marcar as consultas no dia em que a gestante tem que se vacinar”, explica.
Outros profissionais também se engajam para preencher a carteirinha das gestantes. “A visita domiciliar do agente comunitário é feita mensalmente durante a gravidez e eles também reforçam para as pacientes levarem a carteira de vacinação para a consulta, e informam para a gente se alguma gestante está com atraso”, conta a médica.
Fonte: Agencia Brasil - Saúde


