Nova modalidade de crédito consignado para trabalhadores com carteira assinada cresce no estado, mas exige atenção para evitar endividamento

Desde o lançamento da nova modalidade de crédito consignado para trabalhadores com carteira assinada — o chamado empréstimo CLT ou e-Consignado —, quase 9 mil sul-mato-grossenses já aderiram à proposta que promete juros mais baixos, menos burocracia e contratação direta pelo aplicativo da Carteira de Trabalho Digital. Os números chamam atenção: até o dia 3 de abril, 8.952 contratos haviam sido firmados em Mato Grosso do Sul, movimentando um montante de R$ 60,2 milhões em crédito.
A modalidade foi oficializada em 12 de março de 2025 e disponibilizada para contratação no dia 21 do mesmo mês. Trata-se de uma iniciativa do Governo Federal voltada a trabalhadores formais regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que agora podem contratar empréstimos diretamente com instituições financeiras sem a necessidade de intermediação da empresa onde trabalham.
De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), mais de 673 mil trabalhadores em MS estão aptos a utilizar esse novo tipo de crédito. Mas, apesar do apelo da praticidade e da promessa de taxas atrativas, especialistas chamam atenção para os riscos de adesão impulsiva — especialmente em um cenário de juros altos e orçamento familiar apertado.
Facilidade que exige cautela
A principal vantagem do e-Consignado está na redução das taxas de juros, já que as parcelas são descontadas diretamente do contracheque do trabalhador. Além disso, o uso do saldo do FGTS como garantia também reduz o risco para as instituições financeiras, permitindo condições mais acessíveis do que as modalidades tradicionais de crédito pessoal.
Parcelas comprometem quase 25% do salário
Dados do MTE mostram que a média das parcelas contratadas pelos trabalhadores de Mato Grosso do Sul gira em torno de R$ 367 mensais, com prazo médio de 18 meses. Isso representa cerca de 24% do salário mínimo vigente (R$ 1.518,00).
A nível nacional, a nova linha de crédito movimentou até agora R$ 3,3 bilhões, com mais de 532 mil contratos assinados. O valor médio do empréstimo por trabalhador gira em torno de R$ 6.209, e o prazo mais comum segue sendo de 18 meses.
Juros ainda altos no cenário nacional
Apesar das condições mais favoráveis que o empréstimo CLT oferece em comparação a outras linhas de crédito, a taxa básica de juros no país continua elevada. Em março, o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic em 14,25% ao ano, o maior patamar desde 2016. Esse fator afeta todo o mercado de crédito, pressionando os bancos e encarecendo o acesso ao dinheiro.
Como funciona o crédito CLT?
A contratação do empréstimo é feita diretamente pela Carteira de Trabalho Digital, no celular. Basta o trabalhador acessar o app e autorizar o compartilhamento de seus dados com os bancos credenciados — como nome, CPF, margem consignável e tempo de vínculo empregatício.
Com base nessas informações, o sistema oferece propostas de crédito personalizadas, e o trabalhador escolhe a mais vantajosa. O valor das parcelas é descontado diretamente do salário via sistema e-Social, e o limite de comprometimento é de até 35% da remuneração mensal.
Em caso de demissão, o banco pode reter 10% do saldo do FGTS, além de 100% da multa rescisória, como forma de garantir o pagamento do saldo restante da dívida.
Atenção redobrada também para empregadores
Empresas que possuem funcionários interessados no empréstimo também precisam seguir um procedimento específico para registrar os descontos e fazer os repasses corretamente. O processo envolve notificações pelo Domicílio Eletrônico Trabalhista (DET), acesso mensal ao Portal Emprega Brasil, e geração das guias de recolhimento por meio do FGTS Digital.
No caso de empregadores domésticos e MEIs, o recolhimento dos valores é feito automaticamente no DAE do eSocial, exigindo apenas a conferência dos dados antes da aprovação da folha.
Crédito com consciência
Apesar de representar uma inovação positiva no acesso ao crédito para milhões de trabalhadores, o empréstimo CLT não deve ser visto como solução para todos os problemas financeiros. Especialistas reforçam que o crédito precisa ser utilizado com responsabilidade e planejamento — principalmente em tempos de incerteza econômica e inflação elevada.
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Autoria: Sarah Pacini

