Companhia deixará de operar no município pantaneiro em setembro; Governo do Estado e prefeitura tentam manter voos ativos para não afetar turismo e economia local.

A Azul Linhas Aéreas confirmou que vai suspender seus voos com destino ao município de Corumbá, no Pantanal de Mato Grosso do Sul, a partir de setembro. A medida, segundo a companhia, ocorre como consequência direta do cenário de alta do dólar, da recuperação judicial em curso nos Estados Unidos e do aumento dos custos operacionais. A decisão faz parte de uma reestruturação da malha aérea, com foco em rotas de maior rentabilidade e operação em hubs estratégicos.
A empresa informou, em nota à Folha de S. Paulo, que 13 cidades brasileiras deixarão de ser atendidas em função desses ajustes. Entre elas, Corumbá, localizada a 428 km da capital Campo Grande, considerada uma cidade estratégica para o turismo ecológico, o agronegócio e o acesso internacional pela fronteira com a Bolívia.
“A decisão foca em rotas estratégicas que apresentam maior retorno operacional. Diante do cenário de alta dos custos operacionais, incluindo o impacto da valorização do dólar e desafios na disponibilidade da frota, esses ajustes são necessários para garantir a sustentabilidade financeira das rotas”, justificou a Azul.
Corumbá em expansão, mas fora da malha da Azul
A notícia da saída da Azul contrasta com dados recentes sobre o desempenho do aeroporto local. No primeiro semestre de 2025, o terminal movimentou cerca de 18 mil passageiros, e atualmente passa por obras de ampliação, com expectativa de elevar a capacidade anual para 100 mil passageiros.
As operações da Azul para Corumbá ocorriam aos sábados, utilizando aeronaves Embraer 195 E2, com capacidade para 136 passageiros. Apesar do potencial de crescimento, a companhia alega que os indicadores de rentabilidade da rota estavam abaixo da média, e por isso, a manutenção do voo se tornou insustentável no momento.
Ainda segundo a Azul, todos os passageiros com voos futuros já foram notificados e receberão assistência conforme regulamentação da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil).
Mobilização local tenta manter voos em Corumbá
A decisão da Azul preocupa autoridades locais e representantes do setor produtivo, que apontam graves prejuízos ao turismo regional e ao escoamento da produção agropecuária. Diante disso, a Prefeitura de Corumbá, liderada pelo prefeito Gabriel Oliveira (PSB), iniciou uma mobilização emergencial para tentar reverter a suspensão ou atrair outras empresas para assumir a rota.
“O voo para Corumbá é fundamental para o turismo e o agronegócio, setores que dependem da conexão rápida para o escoamento e atração de visitantes. Sem essa conectividade aérea, nossa economia será impactada diretamente”, afirmou o prefeito.
Oliveira comanda uma comissão formada por vereadores, representantes da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e empresários locais, com o objetivo de abrir diálogo com a Azul e com o Governo do Estado. A administração municipal também avalia a concessão de incentivos fiscais, como a redução do ICMS sobre o querosene de aviação (QAV), como forma de manter a rota atrativa para companhias aéreas.
Governo estadual também articula soluções
O Governo de Mato Grosso do Sul declarou que já está em negociação com companhias do setor aéreo, buscando alternativas para garantir a conectividade aérea de Corumbá. Entre as opções, está uma tratativa com a Gol Linhas Aéreas, que teria manifestado interesse em operar uma nova rota entre Campo Grande e Guarulhos com escala em Corumbá.
A proposta incluiria voos noturnos, voltados principalmente para o público corporativo e turístico, embora a data de início da operação ainda não tenha sido definida.
Além disso, a Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc) também atua na construção de alternativas que garantam a presença de voos comerciais regulares em municípios estratégicos como Corumbá, Bonito e Dourados, fundamentais para o ecoturismo e o setor produtivo estadual.
Dólar, frota reduzida e recuperação judicial afetam a aviação regional
A decisão da Azul faz parte de um movimento mais amplo da companhia, que entrou com pedido de recuperação judicial em maio de 2025, nos Estados Unidos. A empresa busca reestruturar dívidas com credores e ajustar sua operação frente ao aumento do dólar, que encarece especialmente insumos importados, manutenção da frota e leasing de aeronaves.
O real desvalorizado tem impacto direto nos custos das companhias aéreas brasileiras, uma vez que grande parte dos gastos — como combustível, peças e seguro — são calculados em moeda estrangeira.
Além disso, a Azul também enfrenta desafios de disponibilidade da frota, o que limita a manutenção de rotas com ocupação irregular ou menor rentabilidade.
Impactos para o turismo e o Pantanal
Corumbá é uma das principais portas de entrada para o Pantanal, bioma considerado Patrimônio Natural Mundial pela UNESCO. A cidade também é estratégica para o turismo de fronteira com a Bolívia, além de sediar eventos culturais importantes e atrair visitantes interessados em pesca esportiva e turismo de natureza.
A saída da Azul compromete a logística de acesso à região, especialmente em épocas de cheia ou seca intensa, quando as estradas podem ter condições adversas. O receio é de que a suspensão dos voos resulte em redução da atividade turística, perda de empregos e queda na arrecadação municipal.
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Autoria: Sarah Pacini

