Criada em 1996, instituição que transformou a vida de milhares de crianças e jovens passa a integrar oficialmente a lista de bens materiais e imateriais protegidos pelo Estado.
Após quase três décadas dedicadas à formação artística, cultural e humana de crianças, adolescentes e jovens, a Casa de Ensaio, em Campo Grande, conquistou um dos reconhecimentos mais significativos de sua história: o título de Patrimônio Material, Imaterial e Cultural de Mato Grosso do Sul. Fundada em 1996 pelos artistas e educadores Laís Dória e Artur Monteiro de Barros, a instituição tornou-se referência em projetos que unem arte, cidadania e transformação social, influenciando gerações e deixando marcas profundas na comunidade sul-mato-grossense.
O projeto de lei que concede o reconhecimento, de autoria do deputado Renato Câmara, define de forma detalhada os elementos que passam a ser oficialmente protegidos pelo Estado. No âmbito do patrimônio material, ficam resguardados a sede da instituição, todo o acervo acumulado ao longo dos anos — incluindo figurinos, cenários, instrumentos, documentos e registros — que ajudam a contar a trajetória e a identidade visual da Casa. São elementos que não apenas compõem a história do espaço, mas também guardam memórias de centenas de apresentações, processos criativos e experiências vividas pelos alunos.
Já no campo imaterial, o reconhecimento é ainda mais simbólico. O Estado passa a proteger metodologias e práticas desenvolvidas e aperfeiçoadas pela instituição, como a Pedagogia das Artes Emendadas, abordagem educacional que integra diferentes linguagens artísticas para promover o desenvolvimento sensível, crítico e emocional de crianças e adolescentes. Também entram no patrimônio imaterial o curso Brincaturas & Teatrices, um dos programas mais tradicionais da Casa, a prática da Roda — momento ritualístico e pedagógico de alinhamento e partilha — e os saberes construídos e transmitidos pela instituição ao longo de quase 30 anos.
Ao longo de sua existência, a Casa de Ensaio já promoveu 18 espetáculos teatrais, que beneficiaram mais de 5 mil estudantes diretamente envolvidos nos projetos. Esses espetáculos, concebidos por meio de processos colaborativos e pedagógicos, alcançaram um público de mais de 50 mil espectadores, muitos deles vivenciando a experiência de assistir a uma peça teatral pela primeira vez. O impacto vai além do palco: a instituição se tornou um espaço seguro, acolhedor e criativo para jovens de diversos bairros, muitos em situação de vulnerabilidade social.
O programa Brincaturas & Teatrices, realizado anualmente, atende cerca de 70 alunos e se tornou um dos pilares da Casa. Por meio dele, crianças e adolescentes desenvolvem habilidades artísticas em teatro, música, dança e artes visuais, ao mesmo tempo em que ampliam sua capacidade de expressão, autoestima e senso de comunidade. A metodologia aplicada privilegia a autonomia e o respeito às individualidades, oferecendo um ambiente em que cada participante pode experimentar, errar, criar e se reinventar.
O reconhecimento como patrimônio cultural representa não apenas uma homenagem à história da Casa de Ensaio, mas também uma forma de assegurar a continuidade de seu trabalho. A proteção legal busca garantir que sua sede, seus materiais, suas práticas pedagógicas e seu legado artístico sejam preservados e valorizados pelas próximas gerações. Em um contexto em que projetos culturais muitas vezes enfrentam dificuldades para se manter, especialmente aqueles voltados ao público jovem e à formação cidadã, a medida reforça a importância social e simbólica da instituição.
Além disso, o título contribui para a valorização da memória cultural de Campo Grande e de Mato Grosso do Sul. A Casa de Ensaio não apenas formou artistas; ela formou cidadãos, estimulou talentos, ampliou horizontes e ajudou a moldar o cenário cultural local. Muitos de seus ex-alunos seguiram carreiras na arte, no ensino e em outras áreas, levando consigo os valores e aprendizados vivenciados no espaço.
O impacto da instituição também se reflete em parcerias com escolas, comunidades e organizações culturais. Ao longo dos anos, a Casa realizou diversos projetos de circulação, apresentações em espaços públicos, oficinas e ações sociais, ampliando seu alcance e fortalecendo sua missão de democratizar o acesso à arte. Seu trabalho contínuo demonstra que iniciativas culturais, quando bem estruturadas e sustentadas por uma visão humanista, podem transformar realidades e abrir portas que, para muitos jovens, pareciam inalcançáveis.
O reconhecimento como Patrimônio Cultural de Mato Grosso do Sul chega em um momento simbólico, de quase 30 anos de existência, e funciona como uma certificação do valor que a Casa de Ensaio representa para o Estado. Para os integrantes, fundadores, ex-alunos e apoiadores, trata-se de um gesto que reafirma não apenas a importância da instituição, mas também o compromisso público de preservar sua história e garantir condições para que continue desempenhando seu papel transformador.
Assim, a Casa de Ensaio se firma, mais uma vez, como um patrimônio vivo — não apenas guardado em documentos e acervos, mas pulsando em cada espetáculo, cada roda, cada aprendizado e em cada jovem que encontrou ali um caminho possível pela arte.
Autoria: Sarah Pacini
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