Procedimento permite preservar óvulos mais jovens, mas não garante gravidez e tem melhores resultados quando feito antes dos 35 anos
Número de mulheres que optam pelo congelamento de óvulos cresceu nos últimos anos no Brasil. Em 2025, 18,6 mil brasileiras realizaram o procedimento, um aumento superior a 135% em cinco anos, segundo dados do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A técnica ganhou espaço como uma alternativa para mulheres que desejam adiar a maternidade por motivos pessoais, profissionais ou de planejamento de vida.
Apesar do avanço da medicina reprodutiva, especialistas alertam que o congelamento de óvulos não representa uma garantia de gravidez e depende de fatores como idade, quantidade e qualidade dos óvulos preservados.
Por que a idade influencia na fertilidade
A idade da mulher é considerada o principal fator relacionado às chances de engravidar.
Os óvulos não são produzidos continuamente pelo organismo. A mulher nasce com uma reserva determinada de células reprodutivas, que diminui ao longo dos anos.
Com o passar do tempo, além da redução da quantidade, também ocorre queda na qualidade dos óvulos.
Por isso, especialistas recomendam que mulheres interessadas no procedimento não deixem a decisão para muito tarde.
Embora o Conselho Federal de Medicina permita o uso de técnicas de reprodução assistida até os 50 anos, médicos costumam indicar que o congelamento seja avaliado preferencialmente antes dos 35 anos.
Após essa idade, a redução da fertilidade tende a se tornar mais acelerada, especialmente depois dos 38 anos.
Crescimento do chamado congelamento social
Durante muitos anos, o congelamento de óvulos esteve ligado principalmente a situações médicas, como tratamentos contra câncer, endometriose ou doenças que poderiam comprometer a fertilidade.
Nos últimos anos, aumentou também o chamado congelamento social, quando mulheres saudáveis optam por preservar óvulos por escolha pessoal.
Entre os motivos estão a busca por estabilidade profissional, estudos, ausência de um parceiro naquele momento ou simplesmente o desejo de manter uma possibilidade futura de maternidade.
A técnica também ganhou visibilidade com relatos de celebridades que compartilharam suas experiências.

Como funciona o congelamento de óvulos
O processo começa com uma avaliação da reserva ovariana.
Um dos exames utilizados é a medição do hormônio antimülleriano (AMH), feito por meio de exame de sangue, além de outras análises indicadas pelo médico.
Depois da avaliação, começa a fase de estimulação ovariana.
A mulher utiliza medicamentos hormonais para estimular o desenvolvimento de vários folículos ovarianos, estruturas que podem conter óvulos.
Durante esse período, exames de ultrassom acompanham o crescimento dos folículos para definir o melhor momento da coleta.
A retirada dos óvulos é feita por um procedimento realizado em ambiente hospitalar, com sedação e acompanhamento médico.
Depois da coleta, os óvulos são congelados por meio da técnica chamada vitrificação, um método de congelamento rápido que ajuda a preservar as características das células.
Procedimento pode ultrapassar R$ 20 mil
O congelamento de óvulos envolve custos elevados.
Além das consultas e procedimentos médicos, há gastos com medicamentos utilizados na estimulação ovariana.
Em um ciclo, os medicamentos podem custar entre R$ 5 mil e R$ 10 mil, dependendo da quantidade necessária.
Somando acompanhamento, coleta e armazenamento, o valor total pode ultrapassar R$ 20 mil.
Também existe uma taxa anual para manter os óvulos congelados, que pode variar conforme a clínica e a região do país.
Quando não há indicação médica, o procedimento geralmente não é coberto pelos planos de saúde.

Congelamento não garante bebê no futuro
Um dos principais mitos sobre o procedimento é imaginar que o congelamento funciona como uma garantia de gravidez.
Na prática, ele preserva a idade do óvulo, mas o sucesso depende de várias etapas posteriores.
No futuro, o óvulo precisa ser descongelado, fertilizado em laboratório e transformado em embrião antes da tentativa de implantação no útero.
Cada fase possui possibilidade de falha.
Segundo especialistas, um óvulo congelado aos 35 anos pode ter melhores chances do que um óvulo produzido naturalmente aos 40 anos, mas ainda assim não há garantia de nascimento de um bebê.
Quantidade de óvulos influencia nas chances
Como nem todos os óvulos congelados serão utilizados com sucesso, médicos trabalham com probabilidades.
Especialistas costumam considerar que mulheres abaixo dos 35 anos podem ter uma possibilidade real de gravidez futura ao congelar aproximadamente dez óvulos maduros de boa qualidade.
Em alguns casos, porém, pode ser necessário realizar mais de um ciclo para conseguir uma quantidade considerada adequada.
Corpo envelhece mesmo com óvulos congelados
Embora a técnica preserve a idade dos óvulos, ela não interrompe o envelhecimento do organismo.
Uma gravidez em idade mais avançada pode envolver maior acompanhamento médico por causa do aumento de riscos como pressão alta e diabetes gestacional.
Por isso, o planejamento deve considerar não apenas a fertilidade, mas também as condições gerais de saúde da mulher.
Quem pode fazer o congelamento
O procedimento pode ser indicado para diferentes situações:
Pacientes em tratamento contra câncer
Quimioterapia e radioterapia podem afetar a reserva ovariana. O congelamento pode ser uma forma de preservar a fertilidade antes do tratamento.
Mulheres com risco de falência ovariana
Casos de menopausa precoce ou alterações na função dos ovários também podem indicar avaliação.
Doenças ginecológicas
Condições como endometriose ou cirurgias ovarianas podem reduzir a reserva de óvulos.
Mulheres que desejam adiar a maternidade
Pessoas saudáveis que pretendem esperar alguns anos antes de ter filhos também podem optar pela técnica.
Hábitos ajudam, mas não impedem o envelhecimento dos óvulos
Alimentação equilibrada, prática de exercícios físicos, evitar cigarro e reduzir consumo excessivo de álcool podem contribuir para uma melhor saúde reprodutiva.
No entanto, esses cuidados não conseguem interromper o processo natural de envelhecimento dos óvulos.
A idade continua sendo o principal fator para a qualidade dessas células.


