No coração do Pantanal da Nhecolândia, a Fazenda Santa Cruz mantém viva a memória e o imaginário do poeta sul-mato-grossense, que transformou a simplicidade da natureza em versos eternos.

Por décadas, o Pantanal foi a principal fonte de inspiração de Manoel de Barros, um dos maiores nomes da literatura brasileira. Hoje, o mesmo cenário que deu vida aos seus versos continua quase intocado. A Fazenda Santa Cruz, localizada na Nhecolândia, região pantaneira de Corumbá (MS), ainda abriga lembranças do poeta, sua história e o eco silencioso de suas palavras sobre o “nada” e as grandezas miúdas da vida.
A propriedade foi herdada por Manoel de Barros em 1949, após a morte de seu pai. Ali, ele viveu por cerca de dez anos ao lado da esposa, Stella, longe de tudo — sem rádio, sem televisão e sem vizinhos por perto. Foi nesse isolamento criativo que o poeta deu forma à sua linguagem única, onde o banal se tornava extraordinário e o barro se misturava à poesia.
Um refúgio no meio do nada
Setenta e seis anos depois, a fazenda continua sendo um refúgio de simplicidade e contemplação. A casa de madeira de telhado baixo, erguida sobre o solo pantaneiro, mantém o mesmo aspecto rústico da época. Dentro dela, ainda repousam objetos pessoais, móveis antigos e lembranças de um tempo em que o poeta caminhava descalço entre as palavras e as águas.
“É um lugar lindo, onde a gente respira poesia. Tem objetos do Manoel, o quarto dele, tudo muito simples e cheio de significado. Existe até um projeto para transformar o espaço em um memorial”, descreve Paulo Cruz, integrante do Instituto Alma Pantaneira, que recentemente visitou o local durante uma expedição.
As imagens feitas por Paulo mostram pinturas do rosto de Manoel fixadas nas paredes e exemplares de seus livros espalhados pela casa. O espaço, silencioso e impregnado de história, transmite a sensação de que o poeta apenas saiu para mais uma caminhada entre as árvores e os pássaros.
Hoje, quem cuida da fazenda é o filho do escritor, Manoel de Barros Filho, conhecido como Manoelzinho, que mora ali com a família. A convivência com a natureza continua sendo o eixo da vida cotidiana — assim como era para o pai, que via beleza nas coisas desimportantes e acreditava que “as coisas jogadas fora têm grande importância”.
A visita que virou homenagem
A Fazenda Santa Cruz foi um dos pontos de parada da expedição do Instituto Alma Pantaneira, iniciativa que percorre o bioma levando atendimento médico, odontológico e veterinário às comunidades ribeirinhas. A visita, além de oferecer assistência, se transformou em um momento de reverência à memória de Manoel e ao modo de vida que ele imortalizou em sua obra.
“Estar ali foi emocionante. É como se cada canto da fazenda falasse um poema. A gente percebe que o Pantanal, com seus silêncios e exageros, continua presente em tudo — nas paredes, nas árvores, nas pessoas que ainda vivem ali”, contou Paulo Cruz.
Segundo ele, visitar o lugar foi também um lembrete sobre a necessidade de preservar o Pantanal e sua cultura. “A família do Manoel é pantaneira. E hoje a gente costuma dizer que o ser mais ameaçado de extinção no Pantanal é justamente o pantaneiro, com seus hábitos e cultura”, refletiu.
O Pantanal que virou poesia
Para Manoel de Barros, o Pantanal nunca foi apenas cenário — era personagem, parceiro e matéria-prima. Em suas palavras, as garças viravam metáforas, as formigas ganhavam voz, e até o silêncio tinha cor. Na Santa Cruz, ele aprendeu a observar o tempo devagar, o vento nas palmeiras e a “inutilidade” das coisas simples.
A solidão e o isolamento geográfico, que poderiam parecer duros a qualquer outro homem, eram para ele o alimento da criação. Foi nesse período que escreveu parte de sua obra mais simbólica, que viria a consolidar o chamado “lirismo do ínfimo” — um olhar poético sobre o pequeno, o esquecido e o aparentemente sem valor.
Na fazenda, Manoel viveu o que mais tarde descreveria como “o tempo do desimportante”. Em vez de buscar o extraordinário, aprendeu a encontrar grandeza no nada. É dessa filosofia que nascem versos como:
“As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis. Elas querem ser olhadas de azul — que nem criança que você olha de ave.”
Preservar o espaço, preservar a memória
Atualmente, o Instituto Alma Pantaneira e a família Barros estudam transformar a fazenda em um memorial cultural dedicado à vida e à obra do poeta. A ideia é criar um espaço de visitação e reflexão, onde estudantes, turistas e admiradores possam mergulhar no universo simbólico de Manoel e compreender a força poética do Pantanal.
Enquanto o projeto ainda está em fase inicial, o local permanece como uma cápsula do tempo — um pedaço do Pantanal onde o passado ainda respira. As mesmas árvores, o mesmo cheiro de terra molhada e o mesmo horizonte que inspiraram Manoel seguem lá, intactos, como se guardassem segredo.
Um legado que continua crescendo
Mesmo após sua morte, em 2014, Manoel de Barros segue vivo na voz dos leitores e nos ventos do Pantanal. Seus versos continuam ensinando que a poesia não mora no grandioso, mas no cotidiano; não no barulho, mas no sussurro das coisas pequenas.
A Fazenda Santa Cruz, com sua arquitetura modesta e sua paisagem vasta, é mais que um ponto geográfico — é o símbolo do encontro entre o homem e a natureza, entre o silêncio e a criação.
E quem visita o lugar entende o que Manoel sempre quis dizer quando afirmava:
“O nada é a minha matéria-prima.”
Naquele pedaço do Pantanal, o nada ainda floresce — em cada árvore, em cada verso que o vento insiste em recitar.
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Autoria: Sarah Pacini

