Estado teve salto na disparidade de remuneração entre 2022 e 2023; levantamento revela diferenças por setor, escolaridade e crescimento do mercado formal

A desigualdade salarial entre homens e mulheres voltou a crescer em Mato Grosso do Sul, revelam dados do Cadastro Central de Empresas (Cempre), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quinta-feira (13). Enquanto o Brasil apresentou redução na disparidade de renda, o cenário estadual seguiu tendência oposta, com aumento de quase 2 pontos percentuais na diferença salarial entre 2022 e 2023 — ano de referência do estudo.
O levantamento mostra que a diferença de remuneração passou de 4,3% para 6,2% a favor dos homens. Na prática, isso significa que, mesmo dentro do mercado formal, trabalhadoras sul-mato-grossenses seguem recebendo menos que seus colegas do sexo masculino. No Brasil, ao contrário, houve queda de 17% para 15,8% no mesmo período.
Em valores absolutos, os homens receberam, em média, R$ 3.693,73, enquanto as mulheres tiveram remuneração média de R$ 3.476,26 — o equivalente a 94,1% do salário deles. A desigualdade, embora inferior à média nacional, acendeu um alerta no Estado por ir na contramão da tendência de redução observada no país.
Setores seguem marcados por divisão de gênero
O Cempre também detalha como homens e mulheres estão distribuídos no mercado formal sul-mato-grossense. Os dados confirmam uma forte segmentação por setor de atividade:
- Homens são maioria em atividades tradicionalmente associadas à força física ou setores industriais:
- Construção: 88,8%
- Indústrias extrativas: 84,9%
- Eletricidade e gás: 83,4%
- Mulheres predominam em áreas historicamente ligadas ao cuidado ou à gestão:
- Atividades financeiras, de seguros e serviços correlatos: 70,7%
- Educação: 67,9%
- Saúde humana e serviços sociais: 22,4%
Essa divisão influencia diretamente a renda média, já que setores com maior presença feminina costumam oferecer salários inferiores aos setores majoritariamente masculinos.
MS tem 4º maior salário médio do país
Apesar do aumento da desigualdade de gênero, Mato Grosso do Sul registrou avanços no rendimento geral do trabalhador formal. Em 2023, o Estado alcançou o 4º maior salário médio do Brasil, correspondente a 2,8 salários mínimos. Os maiores valores foram observados no:
- Distrito Federal – 4,5 salários mínimos
- São Paulo – 3,3 salários mínimos
- Rio de Janeiro – 3,2 salários mínimos
Na outra ponta, os piores índices ficaram com Alagoas (2,0) e Ceará (2,1).
Em comparação com 2022, o salário médio em MS cresceu 9%, passando de R$ 3.292,14 para R$ 3.589,58 — equivalente a 2,7 salários mínimos. O impacto foi sentido no valor total de salários e outras remunerações pagos no Estado, que atingiu R$ 29,1 bilhões, um salto de 16,56%.
Escolaridade pesa (e muito) no salário
O estudo do IBGE também reafirma uma desigualdade antiga no mercado de trabalho: a diferença salarial entre quem tem diploma universitário e quem não tem. Em 2023, a distribuição dos trabalhadores por escolaridade se manteve praticamente estável:
- 76,1% dos assalariados não tinham nível superior
- 23,9% possuíam formação universitária
A diferença de renda, porém, é expressiva. Enquanto trabalhadores sem ensino superior receberam, em média, R$ 2.443,31, aqueles com diploma ganharam R$ 7.079,03 — ou seja, quem não cursou faculdade recebeu apenas 34,5% do valor pago aos graduados.
As áreas com maior proporção de profissionais com nível superior foram:
- Educação – 69,4%
- Administração pública, defesa e seguridade social – 49,6%
Entre os grupos sem ensino superior, a maior concentração estava em:
- Comércio e reparação de veículos – 24,46%
- Administração pública, defesa e seguridade social – 13,92%
- Indústria de transformação – 13,29%
Estado registra alta no número de empresas e trabalhadores
O Cempre também revela crescimento no ambiente empresarial sul-mato-grossense. Em 2023, Mato Grosso do Sul contabilizou 128,3 mil empresas e organizações formais, aumento de 7,2% em relação a 2022, quando havia 119.735 unidades cadastradas.
O total de pessoas ocupadas — incluindo assalariados, sócios e proprietários — chegou a 783.880, alta de 6,4%. O número de sócios e proprietários alcançou 168.042, reforçando o dinamismo empreendedor do Estado.
Cenário desafia políticas de equidade
Os dados do IBGE revelam um cenário complexo: embora o Estado apresente indicadores positivos em geração de renda e expansão empresarial, a desigualdade salarial entre homens e mulheres voltou a crescer, contrariando a tendência nacional.
Para especialistas, a combinação de setores historicamente desiguais, barreiras estruturais e acesso desigual a cargos de liderança contribui para o avanço da disparidade. O desafio agora é transformar esse diagnóstico em políticas públicas e estratégias de incentivo que promovam maior equidade no mercado de trabalho sul-mato-grossense.
Autoria: Sarah Pacini.
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