Psicóloga alerta para os perigos da superexposição infantil nas redes sociais, que pode alimentar crimes mesmo quando o conteúdo é postado com boas intenções.

Com o avanço da tecnologia e o crescimento das redes sociais como espaços de socialização, muitas famílias passaram a compartilhar momentos da infância dos filhos com frequência — desde o primeiro passo até a rotina escolar. No entanto, essa prática, aparentemente inofensiva, pode representar um sério risco à segurança e ao bem-estar de crianças e adolescentes.
O debate ganhou força nos últimos dias após a Câmara dos Deputados aprovar um projeto de lei que combate a “adultização” de crianças nas redes, medida impulsionada por denúncias de exploração digital de menores, como o vídeo publicado pelo youtuber Felca. O conteúdo expôs práticas preocupantes relacionadas ao uso da imagem infantil para fins de engajamento, entretenimento — e até mesmo abuso.
A psicóloga e especialista em proteção infantojuvenil Nay Macedo afirmou que a forma como os algoritmos funcionam coloca as crianças em risco, mesmo quando os responsáveis publicam fotos ou vídeos com carinho e boas intenções.
“O algoritmo não diferencia o que é afeto do que é exploração. Ele só percebe o engajamento. E se o conteúdo gera muitas interações, ele será entregue para mais pessoas — inclusive para predadores digitais”, explicou Nay.
O perigo por trás da viralização
Segundo Nay Macedo, há múltiplas evidências de que conteúdos com crianças e adolescentes costumam gerar mais visualizações, curtidas e compartilhamentos. E é justamente isso que os algoritmos das plataformas buscam: promover conteúdos que engajem. O problema é que essa lógica de visibilidade não distingue contextos éticos ou seguros, o que pode fazer com que imagens sensíveis cheguem até criminosos.
“A gente parte da premissa de que são pais, tios, avós, professores ou amigos compartilhando momentos com afeto. Mas a internet não é um espaço neutro. As imagens ganham uma vida própria quando entram na lógica do algoritmo”, reforça a especialista.
A preocupação aumenta quando se considera que grande parte do material presente em redes de exploração sexual infantil é chamado de “conteúdo autogerado”. Ou seja, são fotos e vídeos postados pelos próprios responsáveis, muitas vezes em perfis públicos e sem qualquer tipo de restrição.
Compartilhar fotos de crianças é seguro?
A resposta é: não totalmente. Mesmo com configurações de privacidade ajustadas, há sempre o risco de vazamento, captura indevida de tela, ou até mesmo o compartilhamento por pessoas conhecidas.
Nay lembra que agressores muitas vezes estão próximos das vítimas — o que reforça a importância de repensar até mesmo os círculos de confiança. “A ideia de que um perfil fechado é garantia de segurança é um mito. Os riscos continuam existindo”, pontua.
A psicóloga também destaca que a exposição em excesso pode impactar negativamente a saúde emocional da criança a longo prazo, principalmente quando ela não tem voz ativa na decisão de ter sua imagem compartilhada.
“É preciso ensinar desde cedo que ela tem o direito à própria imagem. E mais do que isso: que os adultos devem respeitar sua vontade, caso não queira aparecer”, diz Nay.
Dicas para proteger crianças na era digital
Diante desse cenário, a especialista lista orientações práticas para famílias e educadores que desejam preservar a segurança dos menores no ambiente virtual:
- Evite publicar fotos com uniformes escolares, nome de instituições ou localizações visíveis, pois esses dados facilitam o rastreamento da rotina da criança;
- Não poste imagens em trajes que possam deixá-las vulneráveis, como roupas de banho ou momentos íntimos do cotidiano;
- Mantenha os perfis privados, aceitando apenas pessoas próximas e confiáveis;
- Utilize alternativas seguras para o compartilhamento de momentos em família, como álbuns digitais protegidos por senha, chamadas de vídeo com familiares ou envio por aplicativos com criptografia;
- Converse com a criança, conforme sua maturidade, explicando os riscos da exposição e ouvindo sua opinião antes de publicar qualquer conteúdo.
A responsabilidade é coletiva
Nay Macedo reforça que o uso consciente das redes sociais deve ser um compromisso de todos — não só das famílias, mas também das plataformas, escolas e influenciadores. A recente aprovação do projeto de lei que combate a adultização de crianças é um passo importante, mas a conscientização diária continua sendo a melhor forma de prevenção.
“É urgente entendermos que a exposição digital de uma criança não termina no ‘post’. Ela pode ser resgatada anos depois, fora de contexto, e usada de maneira perversa. Cada clique, cada compartilhamento precisa ser pensado com responsabilidade”, finaliza.
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Autoria: Sarah Pacini

