Dirigido por Ana Carla Loureiro, o documentário percorre quatro regiões do Pantanal sul-mato-grossense em uma jornada poética sobre resistência feminina, ancestralidade e a urgência de preservar o maior refúgio natural do Brasil.

No próximo 12 de novembro, data em que se comemora o Dia do Pantanal, o público de Campo Grande terá a chance de assistir à estreia de um filme profundamente conectado com a alma e a realidade do bioma. O documentário “Quatro Luas Pantaneiras”, dirigido pela cineasta Ana Carla Loureiro, chega às telas do Cinépolis do Shopping Norte Sul Plaza com sessão gratuita e a promessa de emocionar — e despertar consciência.
A produção é fruto de uma imersão de 29 dias pelas quatro regiões mais simbólicas do Pantanal sul-mato-grossense — Albuquerque, Barra de São Lourenço, Serra do Amolar e Nhecolândia — acompanhando a vida e a sabedoria de quatro mulheres que representam a essência da sobrevivência pantaneira. A jornada, guiada pelas fases da lua, traduz o ritmo da natureza e o ciclo contínuo de vida, morte e renascimento que rege o território.
Um olhar feminino sobre o coração do Pantanal
Mais do que um registro documental, “Quatro Luas Pantaneiras” é uma homenagem às mulheres invisibilizadas da planície alagada — protagonistas de um modo de vida que sustenta, há séculos, o bioma e sua cultura.
“Esse filme nasce de uma necessidade de justiça — justiça a essas mulheres pantaneiras que, por tanto tempo, ocuparam um lugar quase invisível na história”, afirma Ana Carla Loureiro, idealizadora e diretora do projeto. “Elas são as guardiãs do território, da economia e da cultura, mas raramente são vistas. O documentário busca tirá-las da retaguarda e colocá-las no centro, onde sempre deveriam estar.”
O longa-metragem, com 70 minutos de duração, dá voz a Edilaine, Leonora, Rosa Maria e Vera, quatro mulheres de trajetórias distintas e igualmente potentes. Três delas nasceram e cresceram no Pantanal, enquanto Vera, nascida no interior de São Paulo, chegou ainda criança e adotou a região como lar — uma “pantaneira de coração”, como define a diretora.
A descoberta dessas protagonistas foi resultado de uma pesquisa minuciosa conduzida pela produtora Bianca Machado, que percorreu comunidades ribeirinhas, fazendas e vilarejos em busca de histórias que representassem a pluralidade feminina pantaneira.
Fotografia e linguagem que respiram o Pantanal
Um dos grandes destaques do filme é sua fotografia exuberante, assinada por Wlacyra Lisboa, Kojiroh e João Paulo Gonçalves. A equipe apostou em capturar o Pantanal em sua forma mais autêntica — viva, mutável, contraditória — evitando a idealização típica das produções turísticas.
“O Pantanal tem uma luz própria, uma textura que muda a cada hora do dia. Era importante que o filme traduzisse isso: a beleza natural, mas também a vida simples, sem artifício”, explica Ana Carla. “Não era apenas sobre filmar o Pantanal, era sobre vivê-lo.”
Durante as gravações, realizadas entre o final da cheia e o início da seca, a equipe enfrentou condições extremas, deslocando-se de barco, caminhonete e até a cavalo para alcançar as locações mais remotas. A cada parada, a câmera buscava mais do que paisagens — procurava sentimentos, gestos e silêncios que revelassem o cotidiano dessas mulheres que resistem em um território em constante transformação.
Entre a poesia e a urgência ambiental
Além da narrativa humana, “Quatro Luas Pantaneiras” também ecoa a preocupação ambiental diante da pior seca registrada no Pantanal nas últimas quatro décadas. O bioma enfrenta incêndios recorrentes, perda de biodiversidade e redução drástica do nível dos rios — temas que aparecem de forma sutil, mas contundente, ao longo do filme.
“Fiquei profundamente tocada pela beleza e pela dor que coexistem no Pantanal”, conta Ana Carla. “Na Serra do Amolar, por exemplo, vimos uma paisagem deslumbrante, mas marcada por cicatrizes dos incêndios recentes. É impossível ignorar o quanto o clima e a ação humana têm alterado o equilíbrio da região.”
O documentário não faz denúncias diretas, mas transforma o olhar poético em denúncia silenciosa. Através das histórias das mulheres, evidencia-se a resiliência do povo pantaneiro, que aprende a lidar com a seca, o fogo e as cheias como parte de um mesmo ciclo de resistência. “Sem resiliência, não há como viver no Pantanal. E isso é algo que aprendi profundamente com essas mulheres”, diz a diretora.
O poder da representatividade feminina
Em um cenário historicamente dominado por narrativas masculinas, o filme se destaca por colocar as mulheres pantaneiras como protagonistas da história. Elas são retratadas não apenas como cuidadoras do lar, mas como guardiãs da terra, das tradições e do futuro.
“Essas personagens mostram que força e sensibilidade não são opostos. São mulheres que plantam, pescam, educam, curam e mantêm viva a cultura pantaneira. São o coração do bioma”, afirma Bianca Machado, produtora do longa.
A diretora também destaca que “Quatro Luas Pantaneiras” é uma produção 100% sul-mato-grossense, realizada com apoio de profissionais locais e financiamento independente. “Queríamos fazer um filme que falasse com verdade, sem o olhar de fora que muitas vezes romantiza o Pantanal. É um filme sobre o Pantanal feito por quem o vive e o sente.”
Cinema como ferramenta de preservação
A estreia no Dia do Pantanal não é coincidência. A data, criada em homenagem à morte do ambientalista Francisco Anselmo de Barros (Francelmo), simboliza a luta pela preservação do bioma. E o documentário chega justamente como um manifesto audiovisual em defesa do território e das pessoas que o habitam.
“‘Quatro Luas Pantaneiras’ não é só uma obra cinematográfica, é um grito de amor e alerta. É sobre não deixar que o Pantanal — e suas mulheres — desapareçam do mapa e da memória”, resume Ana Carla.
Serviço: Estreia de “Quatro Luas Pantaneiras”
- 📅 Data: 12 de novembro de 2025 (Dia do Pantanal)
- 🕖 Horário: 19h
- 📍 Local: Cinépolis Campo Grande – Shopping Norte Sul Plaza
- 🎟️ Ingressos: Gratuitos, disponíveis na plataforma Sympla
Com poesia, realismo e um olhar profundamente humano, “Quatro Luas Pantaneiras” propõe mais que um filme: um encontro entre arte, memória e consciência ambiental.
Nas vozes das quatro protagonistas, o Pantanal se revela em toda sua força — um território de mulheres, águas e histórias que, como as fases da lua, continuam a resistir ao tempo.
Autoria: Sarah Pacini.
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