Cerimônia emocionante teve início na Praça de São Pedro e seguiu com cortejo fúnebre até a Basílica de Santa Maria Maior; cardeais destacaram legado de paz e acolhimento do pontífice argentino

O mundo se despediu neste sábado (26) do Papa Francisco, primeiro papa latino-americano da história e figura central da Igreja Católica no século XXI. Em uma cerimônia marcada por emoção, espiritualidade e forte presença popular, mais de 250 mil pessoas acompanharam o funeral do pontífice, segundo informações oficiais do Vaticano. O cortejo fúnebre percorreu 5,5 quilômetros, entre a Praça de São Pedro e a Basílica de Santa Maria Maior, onde o corpo foi sepultado em ato fechado, sem a presença de fiéis.
A Missa das Exéquias teve início nas primeiras horas da manhã, com milhares de peregrinos já aglomerados na Praça de São Pedro antes do amanhecer. Muitos passaram a noite no local para garantir uma posição privilegiada, dormindo sobre cobertores e sacos de dormir sob o frio da madrugada romana. O acesso foi liberado pouco antes das 6h da manhã, horário local, com segurança reforçada por detectores de metal e revista de mochilas em todos os pontos de entrada.
O caixão com o corpo do papa foi posicionado em frente ao altar externo da basílica por volta das 7h, sendo recebido com aplausos longos e emocionados. A cena, marcada por silêncio respeitoso e lágrimas discretas, selou o adeus de um líder religioso que, ao longo de seu papado, conquistou fiéis e simpatizantes ao redor do mundo por seu estilo próximo, linguagem simples e postura acolhedora.
Autoridades de todo o mundo participaram da cerimônia
O funeral contou com a presença de cerca de 50 chefes de Estado e de Governo, refletindo a relevância global de Jorge Mario Bergoglio, nascido na Argentina. Entre os presentes estavam o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva; o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump; o presidente da Argentina, Javier Milei; e o líder ucraniano Volodmir Zelenski, que chegou a Roma poucas horas antes da cerimônia após anunciar inicialmente que talvez não participasse.
Dez monarcas também marcaram presença, além de representantes religiosos de diversas partes do mundo. Próximos ao altar estavam 220 cardeais, 750 bispos e aproximadamente 4 mil sacerdotes.
A celebração foi conduzida pelo cardeal Giovanni Battista Re, decano do Colégio dos Cardeais, que prestou uma homenagem tocante ao papa. Durante a homilia, Re descreveu Francisco como “um papa do povo, de coração aberto a todos”. Ele lembrou o estilo direto e espontâneo do pontífice, que sabia se comunicar com clareza e empatia. “Sua última imagem para muitos foi a bênção na Páscoa, do alto do papamóvel, nesta mesma praça onde hoje nos reunimos para nos despedir”, afirmou o cardeal.
Papa Francisco: voz ativa pela paz e justiça
Um dos momentos mais marcantes da homilia foi quando Giovanni Battista Re destacou o papel do Papa Francisco como defensor da paz em um mundo assolado por conflitos armados. O discurso foi interrompido por aplausos da multidão quando o cardeal relembrou a postura crítica de Francisco diante das guerras e da violência global.
“Diante das guerras devastadoras destes anos, com horrores desumanos e inúmeras mortes, o papa Francisco levantou sua voz em apelos incessantes pela paz. Rejeitou a lógica do conflito, clamou por negociações sinceras, por diplomacia e empatia”, declarou. “A guerra é sempre uma derrota para a humanidade”, acrescentou, citando uma das frases recorrentes do pontífice.
A missa seguiu com orações dos fiéis em diferentes línguas – francês, árabe, português, polonês, alemão e mandarim –, reforçando o caráter universal da Igreja Católica e o alcance global de sua mensagem.
Legado de acolhimento e transformação
Francisco, eleito papa em 2013, será lembrado como um reformador e líder espiritual comprometido com os marginalizados. Durante seu pontificado, trabalhou pela transparência do Vaticano, buscou reformar a Cúria Romana e defendeu uma Igreja mais próxima dos pobres, aberta ao diálogo inter-religioso e sensível às questões sociais e ambientais.
A postura pastoral, aliada ao discurso firme sobre justiça social, desigualdade e crise climática, consolidou sua figura como uma das mais influentes do cenário mundial no século XXI. Francisco enfrentou também momentos delicados, como denúncias de abusos dentro da Igreja, que enfrentou com discursos firmes e ações institucionais controversas, mas corajosas.
Mesmo diante das críticas de setores conservadores, seu papado é amplamente reconhecido por promover uma renovação espiritual e institucional significativa. “Ele foi movido pela convicção de que a Igreja é casa de todos, um lugar onde ninguém deve ser julgado, mas acolhido”, resumiu Battista Re, refletindo a essência do pontificado de Francisco.
Último adeus
Com o término da missa, o corpo foi levado em cortejo até a Basílica de Santa Maria Maior, local querido por Francisco desde os primeiros dias de seu papado. A cerimônia de sepultamento foi reservada apenas a membros do alto clero e da família papal, encerrando uma jornada de 12 anos à frente da Igreja Católica.
A Praça de São Pedro ficou tomada por fiéis até o fim da manhã, muitos ainda em oração silenciosa ou cantando hinos religiosos. Velas, flores e mensagens de agradecimento foram deixadas em diversos pontos do Vaticano.
O Papa Francisco deixa um legado marcado pela compaixão, coragem moral e compromisso inabalável com a paz. Sua ausência será sentida não apenas dentro dos muros do Vaticano, mas por milhões ao redor do mundo que encontraram nele um líder espiritual com quem podiam se identificar.
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Autoria: Sarah Pacini

