Jornalista fotografou serpente venenosa durante caminhada noturna em Campo Grande; biólogo explica que aparição é sinal de equilíbrio ambiental

Uma simples caminhada noturna acabou se transformando em um encontro inusitado e, para muitos, assustador, no Parque dos Poderes, em Campo Grande (MS). O jornalista e fotógrafo Jean Fernandes flagrou uma jararaca (Bothrops jararaca), uma das serpentes mais conhecidas e peçonhentas do Brasil, rastejando tranquilamente no meio da pista de caminhada, na noite de segunda-feira (27).
O registro rapidamente chamou atenção nas redes sociais. Jean, acostumado a registrar cenas urbanas e da natureza, manteve a distância recomendada e fotografou o animal, publicando o alerta em seus perfis:
“Sempre que for caminhar, preste muita atenção. Encontrei essa jararaca hoje à noite no Parque dos Poderes”, escreveu o jornalista.
A postagem, que incluía fotos nítidas do réptil, teve ampla repercussão entre frequentadores do parque, espaço que diariamente recebe centenas de pessoas para atividades físicas, como corridas, caminhadas e ciclismo.
Aparição que desperta atenção, não pânico
Embora a notícia da presença de uma cobra venenosa possa causar temor, especialistas reforçam que situações como essa são naturais em áreas verdes como o Parque dos Poderes, uma das maiores reservas urbanas de mata nativa da capital sul-mato-grossense.
O biólogo José Milton Longo, consultado pela reportagem, confirmou a identificação da espécie e explicou que o encontro, apesar de exigir cuidado, não é motivo para alarde.
“Sim, é uma jararaca, do gênero Bothrops. É uma serpente peçonhenta, mas sua presença no local é perfeitamente normal. Faz parte da nossa fauna”, afirmou o especialista.
Segundo Longo, o aparecimento de animais silvestres em regiões de contato com áreas urbanas indica preservação ambiental. “Quando há presença de espécies predadoras e de presas, é sinal de que o ecossistema está equilibrado. Há alimento, habitat e condições favoráveis para esses animais permanecerem na região”, explicou.
O Parque dos Poderes: um refúgio natural
Com mais de 170 hectares de vegetação nativa, o Parque dos Poderes é um dos cartões-postais de Campo Grande e abriga sedes de órgãos públicos, além de uma grande área verde com trilhas, ciclovias e pistas de caminhada. Por concentrar vegetação de cerrado, é comum que animais silvestres circulem pela região, especialmente nas primeiras horas da manhã e no fim da tarde.
O local é habitat de tatus, capivaras, tamanduás, seriemas, corujas e várias espécies de serpentes, incluindo não peçonhentas. Contudo, a jararaca — uma das mais comuns do bioma — é frequentemente avistada em áreas de mata fechada ou em locais com muita umidade, como margens de córregos.
O biólogo explica que, com a chegada da primavera e o aumento das chuvas, é normal que cobras se tornem mais ativas. “Com o clima quente e úmido, elas saem mais em busca de alimento, principalmente sapos e pequenos roedores. Isso aumenta a chance de cruzarem com humanos, especialmente em áreas próximas à vegetação”, esclareceu Longo.
Cuidados e prevenção
Apesar de o encontro ter terminado sem incidentes, a cena serve de alerta para quem frequenta áreas naturais. Especialistas recomendam atenção redobrada durante caminhadas, especialmente à noite ou em locais com pouca iluminação.
Entre as orientações de segurança estão:
- Evitar caminhar fora das trilhas demarcadas;
- Usar calçados fechados e roupas que protejam pernas e pés;
- Não tentar capturar, tocar ou espantar o animal;
- Manter distância e avisar autoridades ambientais, como a Polícia Militar Ambiental (PMA) ou o Corpo de Bombeiros;
- Em caso de picada, procurar atendimento médico imediato, informando o local do acidente e, se possível, a aparência da serpente.
“Na maioria das vezes, a cobra não ataca se não se sentir ameaçada. O problema ocorre quando as pessoas tentam se aproximar, filmar ou espantar o animal”, pontuou o biólogo.
O papel das redes sociais na conscientização
A atitude do jornalista Jean Fernandes em registrar o animal de forma segura e compartilhar o alerta foi elogiada por internautas e especialistas. A publicação ajudou a ampliar a conscientização sobre a convivência com a fauna local e os cuidados necessários.
“O Parque dos Poderes é um espaço compartilhado entre pessoas e animais silvestres. É fundamental que os frequentadores entendam isso e respeitem a natureza ao seu redor”, ressaltou Longo.
A repercussão positiva também serviu para reforçar a importância da educação ambiental. Muitos usuários comentaram nas redes sobre encontros semelhantes com cobras, tamanduás e aves, destacando a necessidade de convivência harmônica.
Equilíbrio natural e responsabilidade humana
A jararaca, apesar da fama temida, desempenha papel fundamental no controle de populações de roedores e pequenos mamíferos, ajudando a manter o equilíbrio dos ecossistemas. O biólogo lembra que a eliminação indiscriminada de serpentes causa desequilíbrios ecológicos, que podem resultar no aumento de pragas e doenças.
“É importante lembrar que elas não são inimigas. As cobras fazem parte da natureza e só reagem quando se sentem ameaçadas. Se houver respeito e distância, não há risco”, completou Longo.
Convivência consciente
Após o susto, Jean Fernandes reforçou que continuará frequentando o Parque dos Poderes, mas agora com ainda mais atenção. “Não foi medo, foi respeito. A natureza está ali, viva, e a gente precisa aprender a dividir o espaço com ela”, comentou o jornalista.
O caso serve de lembrete para os moradores da capital: preservar o ambiente é também compreender que os animais silvestres têm direito ao seu espaço. E, em locais como o Parque dos Poderes — onde cidade e natureza convivem lado a lado —, o equilíbrio depende da consciência e do cuidado de todos.
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Autoria: Sarah Pacini

