Animal foi localizado nas imediações do ataque, em Aquidauana (MS), e será avaliado por especialistas após comportamento considerado raro e preocupante por autoridades ambientais.

A onça-pintada que atacou e matou o caseiro Jorge Avalos, de 60 anos, no Pantanal sul-mato-grossense, foi capturada na madrugada desta quinta-feira (24) por equipes da Polícia Militar Ambiental (PMA). O animal, um macho com cerca de 94 quilos — abaixo do peso considerado saudável para a espécie —, foi encontrado nas proximidades do pesqueiro onde ocorreu o trágico ataque, em uma região conhecida como Toro Morto, no município de Aquidauana.
A captura ocorreu três dias após o ataque, que aconteceu na manhã da última segunda-feira (21). Cerca de 10 militares participaram da operação, que contou com armadilhas estrategicamente posicionadas e acompanhamento de um pesquisador da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) especializado em grandes felinos.
De acordo com as autoridades, a onça será levada para o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS) em Campo Grande, onde passará por exames clínicos e comportamentais. O objetivo é entender se o animal apresenta alguma condição de saúde ou ambiental que possa ter influenciado seu comportamento agressivo, descrito como “completamente atípico” pelos especialistas.
Investigação sobre causas do ataque
Em coletiva realizada na quarta-feira (23), o secretário adjunto da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação de Mato Grosso do Sul (Semadesc), Artur Falcette, destacou que o incidente representa uma rara exceção no comportamento natural das onças-pintadas. “Precisamos compreender o que motivou esse ataque. Pode ser fome, doença ou até alterações no habitat provocadas pela ação humana”, afirmou.
A operação contou ainda com 12 agentes da PMA e a utilização de laços e cordas especiais para garantir a captura sem ferimentos no animal. Segundo o coronel José Carlos Rodrigues, que também participou da coletiva, o histórico da área não registra outros ataques semelhantes. “Foi um comportamento totalmente fora do padrão. Nossa prioridade agora é evitar que episódios como esse se repitam”, declarou.
Dinâmica do ataque e como tudo aconteceu
Conforme informações apuradas pelas autoridades, Jorge Avalos foi surpreendido pela onça por volta das 5h30 da manhã, momento em que preparava café na casa onde residia e trabalhava como caseiro. A suspeita é de que ele tenha tentado fugir após avistar o animal, mas foi alcançado no deck que dá acesso ao rio. O corpo foi arrastado pela mata e atravessou o rio antes de ser localizado no dia seguinte.
Testemunhas relataram cenas de extrema violência no local. Turistas que costumam frequentar o pesqueiro chegaram a encontrar vísceras, manchas de sangue e pegadas do animal no trajeto. Em um dos vídeos que circulam nas redes sociais, um popular afirma: “A onça comeu o caseiro”.
Imagens das câmeras de segurança da propriedade e vídeos amadores foram recolhidos pelas autoridades e seguirão para perícia. Os resultados devem ajudar a confirmar a sequência dos fatos e contribuir para a análise do comportamento do animal.
Alerta contra práticas ilegais e perigosas
Durante a coletiva de imprensa, representantes da Semadesc chamaram a atenção para uma prática conhecida como “ceva”, em que animais silvestres são alimentados artificialmente para atrair turistas e fotógrafos. Essa atividade, além de criminosa, aumenta os riscos de ataques, pois condiciona os animais a associarem humanos à oferta de alimento.
Embora não haja confirmação de que o pesqueiro onde o ataque ocorreu praticasse essa atividade, o alerta foi reforçado pelas autoridades. Por ser uma propriedade privada, o local não será interditado, mas moradores e visitantes foram orientados a não alimentar animais silvestres sob nenhuma circunstância.
Próximos passos
A partir da chegada da onça ao CRAS de Campo Grande, veterinários e biólogos iniciarão uma avaliação completa do seu estado de saúde. Dependendo do diagnóstico, o animal pode ser reabilitado e, eventualmente, devolvido à natureza em área segura e monitorada, ou transferido para um santuário especializado.
A repercussão nacional do caso reacende o debate sobre a convivência entre humanos e grandes predadores no Pantanal, uma das regiões de maior biodiversidade do planeta, mas também cada vez mais impactada por queimadas, desmatamento e expansão de atividades turísticas sem o devido controle ambiental.
O caso trágico de Jorge Avalos reforça a importância do manejo responsável da fauna silvestre e da adoção de políticas públicas que priorizem a educação ambiental, a preservação dos habitats naturais e o fortalecimento das ações de fiscalização e prevenção de conflitos entre humanos e animais.
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Autoria: Sarah Pacini.

