Desde a Antiguidade, civilizações antigas povoaram o imaginário popular com monstros marinhos colossais. Histórias sobre a serpente Tiamat na mitologia mesopotâmica, o dragão Leviatã na tradição hebraica e a baleia Ceto na mitologia grega demonstram o temor ancestral diante do oceano desconhecido, combinando o encontro com animais reais incomuns e a personificação das forças naturais em seres temíveis.
A realidade por trás dos mitos do mar
Embora tenham nascido do folclore e do medo, essas lendas encontram respaldo na ciência atual. O chamado gigantismo abissal é um fenômeno real observado em várias espécies que habitam as regiões mais profundas do oceano. Nesses casos, animais marinhos tendem a apresentar dimensões muito superiores às de seus parentes que vivem em águas rasas.
Um exemplo notável é a lula-gigante, capaz de ultrapassar 10 metros de comprimento total. Outro caso expressivo é o isópode-gigante, um crustáceo parente do tatuzinho-de-jardim que atinge cerca de 50 centímetros. Mas quais fatores impulsionam esse crescimento descomunal longe da superfície?
A Regra da Ilha aplicada ao oceano profundo
Para desvendar esse mistério, o biólogo Craig R. McClain propôs em um estudo de 2006 um paralelo com a Regra da Ilha, princípio que dita alterações no tamanho corporal de animais em ambientes isolados. Em ilhas terrestres, mamíferos grandes como elefantes sofrem nanismo devido à escassez de alimentos, enquanto animais pequenos crescem por falta de predadores.
Segundo McClain, o mar profundo opera de maneira semelhante. Após eventos de extinção em massa no Cenozoico, a fauna abissal descendeu de espécies de águas rasas, ramificando-se em linhagens menores por falta de comida ou em linhagens gigantescas.
Quatro explicações para o gigantismo abissal
A comunidade científica aponta quatro hipóteses principais para justificar a evolução de corpos colossais nas profundezas:
- Escassez de recursos: Indivíduos maiores resistem melhor a longos períodos sem comida e conseguem percorrer distâncias maiores em busca de presas escassas.
- Ausência de predadores: Há poucos predadores capazes de consumir organismos grandes no abismo, abrindo espaço evolutivo para o gigantismo, visto que predadores das lulas, como a baleia cachalote, precisam vir da superfície.
- Baixas temperaturas: O frio extremo desacelera o crescimento, fator que contribui para o desenvolvimento de estruturas corporais maiores.
- Menor quantidade de oxigênio: A combinação de águas frias, profundas e com baixo oxigênio pode favorecer a respiração em animais de maior porte.
Diversidade de tamanhos no abismo
Apesar dessas evidências, os cientistas ressaltam que não existe uma causa única e definitiva para o gigantismo abissal. É provável que essas hipóteses atuem de forma combinada dependendo da espécie. Além disso, habitar as profundezas não é sinônimo de ser gigante, já que o ecossistema abrigar uma imensa variedade de organismos, incluindo muitas espécies de tamanho minúsculo.
Entre os animais abissais mais fascinantes que exibem essa característica estão a lula-colossal, o peixe-remo, o caranguejo-aranha-japonês, a água-viva-fantasma-gigante e o sifonóforo-gigante.
Fonte: Super Interessante

