Levantamento do IBGE mostra que oficiais maquinistas da navegação lideram entre 428 ocupações; cargos técnicos e públicos dominam o topo da lista

Os profissionais com os maiores salários do Brasil no final de 2024 atuam longe dos holofotes e bem distante dos escritórios convencionais. Segundo microdados analisados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), feita pelo IBGE, a profissão mais bem remunerada do país é a de oficial maquinista da navegação, com uma média salarial de impressionantes R$ 24.422 por mês.
A função, muitas vezes desconhecida do grande público, exige alta qualificação e dedicação. Os oficiais maquinistas são responsáveis por operar, manter e reparar os sistemas mecânicos, elétricos e eletrônicos de embarcações. Eles também podem atuar em funções de suporte técnico em terra, geralmente no setor público. É uma ocupação altamente especializada e com exigência de formação e certificações específicas, o que, segundo especialistas, justifica os altos salários.
Dados oficiais e recorte nacional
O levantamento, feito com base em dados do quarto trimestre de 2024, avaliou 428 ocupações de acordo com a Classificação de Ocupações de Pesquisas Domiciliares (COD) — que padroniza profissões para comparações dentro e fora do país. O estudo contempla trabalhadores do setor privado (com e sem carteira), servidores públicos e autônomos. O salário apresentado é uma média mensal bruta, sem descontos de impostos ou encargos.
Segundo o economista Bruno Imaizumi, da consultoria LCA 4intelligence, que compilou os dados, os salários refletem não apenas a qualificação, mas também o nível de formalização e a produtividade das ocupações. “No topo do ranking estão atividades que exigem anos de formação e oferecem estabilidade, muitas delas no setor público. Na outra ponta, temos profissões informais, onde a renda é mais volátil e os direitos trabalhistas muitas vezes inexistem”, explica.
Profissões no topo do ranking
Além dos oficiais maquinistas, o levantamento destaca outras carreiras com remunerações acima da média nacional. Entre os primeiros colocados aparecem:
- Dirigentes de exploração de mineração, com salários acima de R$ 20 mil;
- Engenheiros químicos e engenheiros civis, ambos com rendimentos acima de R$ 15 mil;
- Juízes e membros do Ministério Público, que também figuram entre os mais bem pagos, com salários que podem ultrapassar R$ 18 mil;
- Economistas e analistas financeiros, com rendas mensais médias entre R$ 13 mil e R$ 16 mil;
- E até mesmo profissões inusitadas no topo, como filósofos, cujos salários médios ficaram acima dos R$ 10 mil, em parte por ocuparem cargos acadêmicos e técnicos especializados em universidades públicas e institutos de pesquisa.
Já os profissionais de escrita técnica e escriturários também aparecem entre os 20 mais bem remunerados, especialmente quando atuam em empresas multinacionais ou órgãos públicos.
Ocupações com os menores salários
Na outra extremidade da lista estão as profissões mais afetadas pela informalidade e baixa valorização no mercado de trabalho. Algumas delas:
- Acompanhantes e criados particulares, com rendimentos próximos de R$ 404 mensais;
- Carregadores de água e coletores de lenha, com salários que variam entre R$ 450 e R$ 600;
- Trabalhadores da caça, pesca e aquicultura artesanal, com rendimentos médios abaixo de R$ 700;
- Ambulantes e catadores de materiais recicláveis, também com baixa média salarial, impactados pela precariedade e sazonalidade das atividades.
Essas ocupações, além de informalizadas, enfrentam dificuldades relacionadas à baixa qualificação exigida, ausência de direitos trabalhistas e condições muitas vezes precárias de trabalho. Segundo Imaizumi, “a produtividade e o nível de formalização estão diretamente ligados à renda. O que vemos nas últimas posições é um retrato do Brasil informal, onde a sobrevivência fala mais alto que a estabilidade”.
Realidade e tendência do mercado
Com o avanço da tecnologia e o crescimento do setor de serviços, há um movimento crescente em torno de profissões técnicas, tecnológicas e voltadas à sustentabilidade, que prometem modificar esse ranking nos próximos anos. Áreas como análise de dados, engenharia ambiental, ciência da computação e inteligência artificial já mostram crescimento salarial expressivo, mesmo sem aparecerem entre os 10 primeiros em 2024.
Além disso, cresce o interesse pelas chamadas “carreiras CLT premium” — expressão que virou tendência nas redes sociais e define cargos que combinam salário alto, benefícios, estabilidade e possibilidade de crescimento dentro de grandes empresas, principalmente nas áreas de tecnologia, direito e finanças.
Salário médio e desigualdade
De acordo com os dados da Pnad, o salário médio do trabalhador brasileiro no período avaliado foi de R$ 3.112, mostrando que as carreiras do topo da lista ganham até oito vezes mais que a média nacional. Essa disparidade reforça a persistente desigualdade de renda no país.
Com base no cruzamento dos dados do IBGE, a diferença entre os maiores e menores salários do ranking ultrapassa R$ 24 mil, evidenciando a distância entre os extremos do mercado de trabalho brasileiro — e, ao mesmo tempo, apontando caminhos para quem busca oportunidades melhores por meio da qualificação e da formalização.
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Autoria: Sarah Pacini

