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Bonito está por um fio, alerta de Mateus Solano

Bonito está por um fio, alerta de Mateus Solano

Ator viajou com a família ao município de Bonito (MS) e relatou nas redes sociais o impacto de ver rios menos azuis e florestas ameaçadas. Post viralizou e reacendeu debate sobre o futuro da região.

O ator Mateus Solano, conhecido por papéis marcantes na TV e pelo engajamento em causas ambientais, fez um desabafo emocionado após visitar Bonito (MS), um dos destinos mais famosos do ecoturismo brasileiro. Em uma publicação no Instagram, o artista descreveu a beleza e a fragilidade do local que visitou com a família, chamando atenção para o que chamou de “um paraíso que sangra por dentro”.

“Bonito, no nome, promete. Mas hoje, quando olho para as águas cada vez menos azuis e para o verde que se desfaz ao redor, sinto o eco de uma história antiga. Bonito está por um fio. E talvez o único milagre possível seja a consciência”, escreveu o ator.

O texto, publicado na quinta-feira (6), viralizou nas redes sociais e ganhou repercussão nacional. Mais do que uma crônica poética, a reflexão de Solano funciona como um alerta sobre a crise ambiental que ameaça a Serra da Bodoquena, região de nascentes cristalinas e rios de águas translúcidas que fizeram de Bonito um dos maiores símbolos de turismo sustentável do país.


De paraíso natural a território em alerta

Localizado a cerca de 300 quilômetros de Campo Grande, Bonito é referência mundial em ecoturismo e conservação ambiental. Mas, nos últimos anos, o município tem enfrentado problemas crescentes de turvamento da água — fenômeno que deixa rios antes cristalinos com coloração barrenta e prejudica a biodiversidade.

As causas, segundo especialistas e investigações do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), estão relacionadas ao desmatamento irregular, ao uso inadequado do solo para agropecuária e à falta de fiscalização em áreas próximas aos rios.

Em julho, o MP abriu um inquérito civil para apurar a degradação de cursos d’água na Serra da Bodoquena, incluindo os rios Formoso, da Prata e Peixe, onde o turvamento tem se tornado mais frequente. O problema, que começou a ser percebido de forma pontual, agora ameaça a base econômica da região: o ecoturismo, responsável por movimentar milhões de reais anualmente.


Quando o azul some, o turismo sente

O impacto ambiental se traduz rapidamente em perdas econômicas e sociais. Nos períodos em que os rios ficam turvos, passeios de flutuação, mergulho e observação da fauna são cancelados, afetando operadoras de turismo, guias e toda a cadeia de hospedagem e alimentação local.

Empresas que antes operavam com alta demanda agora convivem com incertezas. “Quando o rio está barrento, o turista vai embora e o guia volta para casa sem trabalhar”, relata um empresário do setor que prefere não se identificar.

O turvamento também ameaça a vida aquática. A perda de transparência impede a entrada de luz e reduz a quantidade de oxigênio na água, o que compromete espécies típicas da região, como os dourados e piraputangas — peixes que se tornaram símbolo dos passeios de Bonito.


A poesia do ator e o peso da consciência

Na publicação, Solano escolheu contar sua experiência em tom de fábula. Ele menciona a lenda de um homem antigo que “ouvia o que as árvores sussurravam” e previu a ruína do território quando os humanos deixassem de escutar a terra.

O ator se inclui na crítica, reconhecendo que todos têm responsabilidade no processo de degradação. “O vazio dentro de nós, aquele que nos faz confundir progresso com destruição”, escreveu. A frase sintetiza um sentimento compartilhado por moradores e ambientalistas: o de que Bonito está sendo vítima do mesmo modelo de exploração que ameaça outros biomas brasileiros.

A postagem recebeu milhares de curtidas e comentários. Entre os internautas, muitos relataram experiências semelhantes e compartilharam imagens de rios turvos, reforçando a sensação de urgência por medidas mais firmes de preservação.


Problema antigo, solução lenta

O alerta de Solano não surgiu no vazio. Desde 2019, estudos da Embrapa Pantanal e de universidades regionais vêm apontando o aumento da sedimentação dos rios — partículas de terra e argila que escorrem das áreas agrícolas e acabam acumuladas no leito dos cursos d’água.

Em Bonito, o solo é naturalmente arenoso, o que o torna mais vulnerável à erosão. Quando a vegetação é retirada e o manejo do solo não é feito corretamente, a chuva carrega a terra exposta direto para os rios.

O desmatamento em encostas e margens, somado ao avanço da pecuária e agricultura, tem contribuído para agravar o cenário. Dados do MapBiomas mostram que a região da Serra da Bodoquena perdeu mais de 17 mil hectares de vegetação nativa entre 2020 e 2024, o equivalente a cerca de 17 mil campos de futebol.

Para o biólogo Guilherme Dalponti, da Fundação Neotrópica do Brasil, o turvamento é um sintoma de desequilíbrio ecológico. “Bonito depende da floresta tanto quanto depende da água. Sem mata, o solo se desfaz, e sem solo firme, os rios morrem”, explica.


Entre o drama ambiental e a esperança

Apesar do quadro preocupante, há esforços para reverter o processo de degradação. Organizações locais, empresários e ambientalistas vêm trabalhando em projetos de recuperação de matas ciliares, barreiras de contenção de sedimentos e educação ambiental com produtores rurais.

O governo estadual também promete reforçar a fiscalização e aprimorar o zoneamento ecológico-econômico da Serra da Bodoquena, instrumento que define quais áreas podem ou não ser exploradas economicamente.

Mesmo assim, ambientalistas alertam que as medidas ainda são tímidas diante da velocidade das mudanças. “A natureza pede socorro, e a resposta humana continua lenta”, resume Dalponti.


“Bonito ainda pode ser salvo”

A repercussão da fala de Mateus Solano colocou novamente Bonito no centro do debate ambiental. Muitos internautas destacaram que o apelo do ator, além de poético, traduz o sentimento de quem conhece a região há mais tempo e percebe o quanto ela mudou.

Para guias, moradores e pesquisadores, a declaração é um lembrete de que o turismo sustentável só é possível se a natureza for tratada como prioridade.

“Bonito está por um fio”, escreveu o ator.
Mas, como afirmam os ambientalistas locais, ainda há tempo de reconectar o progresso à preservação — e devolver o azul às águas que tornaram Bonito famoso no mundo inteiro.


Autoria: Sarah Pacini.

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