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Maior cachoeira de Mato Grosso do Sul seca

Maior cachoeira de Mato Grosso do Sul seca

Parte da formação rochosa da Cachoeira Boca da Onça, em Bodoquena, desabou após estiagem prolongada. Pesquisadores alertam que a interferência humana pode ter acelerado o processo de desmoronamento.

A Cachoeira Boca da Onça, cartão-postal da Serra da Bodoquena e considerada a maior queda d’água de Mato Grosso do Sul, enfrenta um dos períodos mais críticos de sua história. Com 156 metros de altura, o local perdeu parte de sua formação rochosa — justamente a que lembrava a “boca” do felino que inspirou o nome. O desmoronamento, somado à escassez de água, vem sendo monitorado por pesquisadores e preocupa ambientalistas e moradores da região.

Localizada em uma fazenda privada no município de Bodoquena, a Boca da Onça é um dos principais atrativos turísticos do Estado. Entretanto, desde outubro, visitantes que chegam ao local encontram uma paisagem transformada: o leito está praticamente seco, e o paredão de tufas calcárias — antes uma das imagens mais fotografadas de Mato Grosso do Sul — exibe marcas visíveis de desabamento.

Seca prolongada e interferência humana preocupam especialistas

Segundo o gerente da propriedade, Luís Henrique Soares de Melo, a seca extrema é o principal fator responsável pela diminuição drástica no volume de água. “As nascentes que formam o córrego da fazenda percorrem cerca de dez quilômetros até chegar à cachoeira. O solo poroso faz com que a água da chuva se infiltre, mas, com a estiagem, não há volume suficiente para alcançar a queda”, explica.

Embora a estiagem seja cíclica, cientistas alertam que a ação humana está agravando o cenário natural. O desmatamento, aliado às mudanças climáticas e ao uso desordenado do solo, tem reduzido o fluxo hídrico e afetado diretamente a estabilidade das rochas.

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul abriu, em julho, um inquérito civil para investigar possíveis intervenções irregulares na região da Serra da Bodoquena, área de amortecimento do Parque Nacional que abriga nascentes e rios de grande importância ecológica. O órgão, até o momento, não divulgou os resultados da apuração.

Rochas sensíveis e dependentes da água

O geólogo Paulo César Boggiani, professor da Universidade de São Paulo (USP), acompanha o processo de degradação da cachoeira há pelo menos dois anos. Ele explica que a Boca da Onça é formada por tufas calcárias, um tipo de rocha porosa que se desenvolve a partir da deposição de carbonato de cálcio ao redor de troncos e plantas em ambiente aquático.

“As tufas crescem com a ajuda de microrganismos, especialmente cianobactérias, que realizam fotossíntese e fixam o carbonato de cálcio. Sem a presença contínua de água, esse processo é interrompido, e a estrutura começa a se desintegrar. Com o tempo, o ressecamento leva à ruptura da rocha”, detalha o pesquisador.

Boggiani acrescenta que a redução do fluxo hídrico e a falta de cobertura vegetal agravam o quadro. “Na Serra da Bodoquena, o desmatamento das matas ciliares impede que a água infiltre adequadamente no solo e alimente os lençóis freáticos. Isso afeta diretamente o regime dos rios e a integridade das cachoeiras”, alerta.

Desmatamento em ritmo acelerado

Os dados mais recentes do MapBiomas mostram que, entre 2020 e 2024, a Serra da Bodoquena perdeu 17,3 mil hectares de vegetação nativa — o equivalente a mais de 17 mil campos de futebol. O município de Bonito lidera o ranking do desmatamento, com 9,3 mil hectares devastados, seguido por Bodoquena (5,5 mil hectares) e Jardim (2,5 mil hectares).

De acordo com o biólogo Guilherme Dalponti, da Fundação Neotrópica do Brasil, o desmatamento e a seca alteram profundamente o equilíbrio ecológico da região. “As florestas funcionam como esponjas naturais, retendo água e alimentando o lençol freático. Quando essas áreas são destruídas, o fluxo subterrâneo diminui, e os rios e cachoeiras secam mais rapidamente”, explica.

O biólogo destaca ainda que o impacto não se limita à paisagem: “O desaparecimento do curso d’água compromete toda a fauna aquática. Insetos, peixes, anfíbios e aves dependem dessa corrente constante. Já registramos declínio em espécies endêmicas, como a libélula Elga newtosantosi, ameaçada de extinção.”

Secas anteriores e colapso hídrico

A Boca da Onça já havia enfrentado períodos críticos em anos anteriores. Em 2017, o volume de água caiu drasticamente, e em 2022, durante o fenômeno La Niña, a cachoeira chegou a secar completamente, só voltando a fluir meses depois. Desta vez, porém, o cenário é mais grave.

Mesmo com registros do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) indicando quase 200 milímetros de chuva na região entre setembro e outubro, a cachoeira permanece seca. “A chuva é insuficiente para recompor o lençol freático. A água escoa rapidamente porque o solo perdeu sua capacidade de retenção”, diz Dalponti.

Impacto no turismo e na biodiversidade

O desmoronamento da formação rochosa e o desaparecimento do véu d’água causaram comoção entre moradores e turistas. A cineasta Marinete Pinheiro, que registrou o local há dois anos, ficou chocada com a transformação. “Estava com duas amigas biólogas quando ouvimos um barulho enorme. Descobrimos que parte da rocha havia caído. É triste ver um patrimônio natural dessa magnitude sem uma gota de água. Essa cachoeira precisa ser preservada”, lamenta.

O ambientalista Dennis Hyde, fundador do Instituto Entreparques, que já visitou todos os 75 parques nacionais do Brasil, descreve a cena como simbólica da crise ambiental atual. “Ver uma cachoeira morrendo é como assistir a uma perda irreversível. Não desaparece apenas o turismo, mas também toda uma cadeia de vida que depende dessa água. É um alerta sobre o colapso ambiental que estamos provocando”, afirmou.

Patrimônio natural ameaçado

A Boca da Onça está inserida no Complexo do Cânion do Rio Salobra, uma das áreas mais belas da Serra da Bodoquena. Por sua importância ambiental e turística, o local é considerado patrimônio natural de Mato Grosso do Sul.

Para os especialistas, o episódio reforça a necessidade urgente de políticas públicas de conservação. “O que ocorre na Boca da Onça é um retrato do que pode acontecer em outras partes do país se continuarmos degradando os ecossistemas. Sem floresta, não há água; sem água, não há vida”, resume o geólogo Paulo Boggiani.

Enquanto o poder público investiga as causas e busca soluções, o cenário na serra serve de alerta: a maior cachoeira de Mato Grosso do Sul está literalmente desaparecendo diante dos olhos de quem a visita.


Autoria: Sarah Pacini.

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