Após quatro anos de portas fechadas, patrimônio histórico da Capital sul-mato-grossense pode voltar à cena cultural durante as comemorações do aniversário da cidade; estrutura ainda passa por obras.

Após um longo período de silêncio e abandono, a Morada dos Baís, um dos ícones arquitetônicos e culturais de Campo Grande, tem nova previsão de reabertura. Segundo informações da Secretaria Executiva de Cultura (Secult), o espaço deverá ser reativado no segundo semestre de 2025, com programação especial integrada às festividades do aniversário da cidade, celebrado em 26 de agosto.
O casarão centenário, localizado na Avenida Afonso Pena, foi por muitos anos palco de manifestações artísticas e centro de eventos culturais na Capital. No entanto, desde 2021, quando a parceria com o Sesc Cultura foi encerrada, o prédio permanece fechado e visivelmente deteriorado — com pintura descascada, fachada danificada e letreiros apagados, revelando o desgaste do tempo e a ausência de manutenção adequada.
Estrutura passa por obras emergenciais
A Secult afirma que a reabertura da Morada depende da finalização de reparos estruturais. Segundo nota oficial, estão sendo feitas intervenções para garantir a segurança do público e preservar a integridade histórica do imóvel. Parte das reformas foi necessária após o comprometimento de estruturas internas causadas por raízes de árvores e infiltrações decorrentes de vazamentos no telhado.
Além das obras, outro processo fundamental está em fase final: a regularização da cessão das obras de Lídia Baís, artista plástica e ex-moradora do casarão, que compõem o acervo permanente do espaço. A documentação, segundo a Secult, está tramitando nos órgãos competentes.
Expectativa frustrada após promessa de reabertura em fevereiro
Essa não é a primeira vez que se anuncia a retomada das atividades na Morada dos Baís. No início de 2025, o secretário municipal de Cultura, Valdir João Gomes de Oliveira, havia prometido a reabertura do local em até três meses após o Carnaval. O prazo expirou sem que houvesse movimentação visível no local, gerando frustração entre artistas e frequentadores da antiga casa cultural.
Apesar da inatividade do casarão principal, o prédio anexo à Morada tem sido utilizado pontualmente para a comercialização de artesanato local — embora sem a mesma visibilidade e frequência dos eventos que marcaram a história recente do espaço.
Possível retorno de parcerias
A gestão cultural da Morada dos Baís já foi realizada por meio de parceria entre a Prefeitura de Campo Grande e o Sesc MS, que por anos coordenou atividades regulares como exposições, shows e oficinas no local. Essa colaboração chegou ao fim em 2021, em parte devido à pandemia de Covid-19 e às restrições que inviabilizaram a realização de eventos presenciais.
Em resposta a questionamentos sobre um possível retorno da parceria, o Sesc MS afirmou que segue aberto ao diálogo com o poder público e instituições culturais. “Espaços como a Morada dos Baís devem ser valorizados e mantidos acessíveis à população. Estamos dispostos a colaborar sempre que houver um projeto consistente e condições adequadas de infraestrutura”, informou a entidade.
Patrimônio histórico de 107 anos
Construída em 1918 por Bernardo Franco Baís — o primeiro intendente de Campo Grande — a Morada dos Baís é um dos edifícios mais antigos da cidade. Foi o primeiro imóvel em alvenaria da região urbana e o segundo sobrado da Capital, marcando o início da verticalização arquitetônica.
O casarão não tem apenas valor histórico e arquitetônico. Foi residência da artista Lídia Baís, cuja ousadia artística desafiou o conservadorismo local nas primeiras décadas do século XX. Pintora, escritora e compositora, Lídia tornou-se uma figura central da arte sul-mato-grossense, e seu legado segue presente no imaginário da cidade.
A história da Morada inclui diversos usos ao longo das décadas. Depois da morte de Bernardo Baís, em 1938 — atropelado por uma locomotiva da ferrovia Noroeste do Brasil — o imóvel foi alugado para funcionar como pensão. Posteriormente, o local abrigou desde escola de rádio e televisão até casa lotérica e alfaiataria. Um incêndio em 1974 causou grandes danos à estrutura original, exigindo reformas significativas.
O reconhecimento oficial como patrimônio histórico municipal veio em 1986, quando o prédio foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Cultural de Campo Grande, na gestão do então prefeito Juvêncio César da Fonseca.
Nova fase e importância para a cultura local
Com a possível reabertura se aproximando, a expectativa da comunidade cultural é que a Morada dos Baís volte a cumprir seu papel como espaço democrático de arte, cultura e memória. Sua história, que atravessa mais de um século, reforça a importância de preservar não apenas o patrimônio físico, mas o simbolismo que representa para os campo-grandenses.
Mais do que restaurar paredes e telhados, a reativação da Morada dos Baís significa retomar um ponto de encontro onde a diversidade artística e o diálogo cultural podem florescer novamente.
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Autoria: Sarah Pacini

