Ansiedade, solidão, bullying e baixa autoestima podem levar jovens a buscar refúgio constante no ambiente digital
Tempo excessivo diante do celular nem sempre é a origem das dificuldades enfrentadas por crianças e adolescentes. Em alguns casos, o comportamento pode ser um sinal de sofrimento emocional, problemas de convivência ou transtornos mentais ainda não identificados.
O uso prolongado das telas pode prejudicar o sono, reduzir a prática de atividades físicas, afetar a concentração e aumentar o contato com conteúdos inadequados. Apesar desses riscos, especialistas alertam que apenas retirar o aparelho pode não resolver a situação.
Celular pode funcionar como refúgio
Adolescência é marcada por mudanças físicas, emocionais e sociais. Durante essa fase, a necessidade de aceitação, o medo da rejeição e as dificuldades para construir relações podem provocar insegurança e sofrimento.
Redes sociais, jogos e aplicativos de conversa podem oferecer distração, companhia e sensação de pertencimento. Para jovens que enfrentam ansiedade, tristeza, solidão ou baixa autoestima, o celular pode se transformar em uma maneira de evitar sentimentos desconfortáveis.
Esse alívio, porém, costuma ser temporário. Quando o aparelho é usado como principal forma de escapar dos problemas, o adolescente pode se afastar ainda mais das atividades presenciais e das relações familiares.
Ambiente digital também pode ampliar sofrimento
Além de servir como refúgio, o ambiente virtual pode aumentar dificuldades emocionais já existentes.
Comparações com outras pessoas, exposição a padrões irreais de beleza, busca por aprovação, cyberbullying e contato com conteúdos prejudiciais podem agravar ansiedade, tristeza e sensação de inadequação.
Forma-se, assim, um ciclo: o jovem procura a tela para aliviar o sofrimento, encontra conforto momentâneo e, ao mesmo tempo, fica exposto a situações capazes de piorar seu estado emocional.
Mudanças de comportamento exigem atenção
Quantidade de horas conectadas não deve ser o único aspecto observado pela família. Mudanças no comportamento e na rotina podem oferecer sinais mais importantes.
Pais e responsáveis devem prestar atenção quando o adolescente perde o interesse por atividades que antes apreciava, evita o convívio com outras pessoas, apresenta tristeza frequente, irritabilidade, ansiedade ou alterações no sono.
Queda no rendimento escolar, dificuldades para fazer amigos, afastamento da família e reações intensas ao ficar sem o aparelho também merecem atenção.
A ocorrência de bullying, conflitos dentro de casa ou problemas de autoestima deve ser considerada ao avaliar o comportamento.
Proibição isolada pode aumentar conflitos
Estabelecer limites para o uso da tecnologia continua sendo importante, principalmente quando a tela interfere no descanso, nos estudos e na convivência.
No entanto, uma proibição feita sem diálogo pode aumentar a resistência e esconder o problema que levou o jovem a permanecer conectado por tanto tempo.
Em vez de perguntar apenas como reduzir o uso do celular, a família pode tentar entender o que o adolescente busca ou evita quando entra no ambiente digital.
Escuta sem julgamentos, rotina organizada e atividades compartilhadas podem ajudar a abrir espaço para a conversa.
Apoio profissional pode ser necessário
Quando o isolamento, a tristeza, a ansiedade ou as mudanças de comportamento persistem, a família deve procurar orientação de um profissional de saúde.
Avaliação especializada pode identificar se o uso excessivo da tecnologia está relacionado a um transtorno mental ou a alguma dificuldade emocional específica.
O objetivo não é demonizar o celular, mas compreender o papel que ele ocupa na vida do adolescente. Em muitos casos, a redução do tempo de tela ocorre à medida que o jovem volta a dormir melhor, fortalece relações presenciais e encontra apoio para lidar com seus sentimentos.
Sinais que merecem atenção
- Perda de interesse por atividades antes consideradas prazerosas
- Isolamento de familiares e amigos
- Tristeza, irritabilidade ou ansiedade persistentes
- Alterações no sono e na alimentação
- Queda no desempenho escolar
- Dificuldade para permanecer longe do aparelho
- Uso da internet durante toda a madrugada
- Reações agressivas quando o acesso é limitado
*Bárbara Lara é médica generalista, pós-graduada em psiquiatria pelo Einstein Hospital Israelita e membro da Brazil Health
(Este conteúdo foi produzido por meio de uma parceria exclusiva entre VEJA SÁUDE e Brazil Health)


