Estudo do IMDS revela que Mato Grosso do Sul é o estado com maior probabilidade de ascensão social para jovens de baixa renda, mas índice ainda é considerado baixo por especialistas

Mesmo liderando o ranking nacional de mobilidade social, Mato Grosso do Sul ainda enfrenta enormes desafios para garantir que jovens nascidos em famílias pobres consigam romper o ciclo da desigualdade. Segundo o novo Atlas da Mobilidade Social, lançado pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), o estado apresenta a maior taxa do Brasil de jovens que, nascidos entre os 25% mais pobres da população, conseguem chegar ao grupo dos 10% mais ricos: apenas 2,9%.
Apesar de parecer um dado positivo, o número ainda está longe de representar uma mudança estrutural. A média nacional é de apenas 1,8%, e há estados onde essa chance é quase inexistente. No Pará e no Amazonas, por exemplo, o índice é de 1,1%; já em Alagoas, não passa de 1%.
“Mesmo sendo o melhor resultado do país, a verdade é que o elevador social brasileiro ainda opera com pouquíssimas vagas”, afirma Paulo Tafner, diretor do IMDS. Ele explica que, em países mais desenvolvidos e com maior igualdade de oportunidades, esse índice pode ultrapassar os 10%.
O estudo expõe uma realidade dura: no Brasil, a maioria das pessoas permanece estagnada no mesmo estrato econômico em que nasceu. Em Mato Grosso do Sul, embora existam programas sociais e índices de pobreza tenham diminuído nos últimos anos, as condições para uma mudança real de vida ainda são limitadas.
Educação como principal obstáculo
Segundo o relatório, a principal barreira para essa mobilidade é a baixa qualidade da educação pública, especialmente no ensino básico e médio. Crianças e adolescentes que frequentam escolas mal estruturadas, com baixos índices de aproveitamento, têm mais dificuldade para acessar oportunidades no mercado de trabalho no futuro — o que perpetua o ciclo de pobreza.
Ainda de acordo com o IMDS, quando jovens de baixa renda conseguem acessar uma escola pública de qualidade, o desempenho na vida adulta muda significativamente. “O problema é que essas boas escolas são exceção, não a regra”, pontua Tafner.
A desigualdade racial e de gênero também está refletida nos números. Apenas 14% dos homens brancos nascidos em famílias pobres conseguem subir de classe social. Entre as mulheres e negros, esse índice é ainda menor. Menos de 11% dos filhos dos 50% mais pobres chegaram ao grupo dos 25% mais ricos.
MS: destaque com ressalvas
Ainda que o índice de 2,9% em Mato Grosso do Sul seja o melhor do Brasil, ele continua modesto. Os estados que aparecem logo atrás são o Distrito Federal e Goiás, ambos com 2,8%.
Para especialistas, o resultado positivo no Estado se deve a uma combinação de fatores, entre eles a redução da extrema pobreza, políticas públicas ativas e geração de empregos formais. Segundo o IBGE, a extrema pobreza caiu 25% em MS em 2023, resultado atribuído a programas como Mais Social, Energia Social, MS Supera e Incentiva+.
Essas iniciativas não se restringem apenas ao auxílio financeiro, mas incluem também capacitação profissional, estímulo ao empreendedorismo e parcerias com o setor produtivo. Entre janeiro e novembro de 2024, foram criados mais de 26 mil empregos com carteira assinada no Estado. O setor de serviços foi o que mais empregou (13 mil vagas), seguido por indústria (8 mil) e comércio (5 mil).
Apesar desses avanços, a pobreza ainda atinge uma parcela significativa da população. Cerca de 2% dos sul-mato-grossenses vivem em extrema pobreza — ou seja, com menos de US$ 2,15 por dia, o que equivale a cerca de R$ 12. Já 19,3% estão em situação de pobreza, com renda média de R$ 38 por dia.
O caminho para um futuro mais justo
O Atlas da Mobilidade Social mostra que o Brasil ainda está muito distante de garantir igualdade de oportunidades. Mesmo nos estados mais avançados, como MS, romper o ciclo da pobreza ainda é um feito raro. “Não se trata apenas de estatística. São vidas que poderiam ser transformadas com acesso à educação de qualidade, políticas públicas eficazes e uma economia mais inclusiva”, comenta Tafner.
Para os pesquisadores do IMDS, o caminho passa por reformas estruturais, sobretudo no ensino público. Investir na formação de professores, melhorar a infraestrutura das escolas e garantir permanência e aprendizagem dos estudantes são passos fundamentais para que mais jovens possam sonhar — e concretizar — uma vida melhor do que a de seus pais.
Enquanto isso, a estatística segue como um alerta: mesmo em Mato Grosso do Sul, onde os números são ligeiramente melhores, a promessa da mobilidade social ainda está longe de ser uma realidade para a maioria.
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Autoria: Sarah Pacini
